Aceitar as pessoas como elas são é sinal de sabedoria e fonte de felicidade e esse artigo explica o porquê.
Você já parou para pensar que as pessoas que mais nos incomodam podem ser justamente aquelas que mais têm a nos ensinar?
Pensa comigo…
Quantas vezes, ao longo do dia, você se irrita com alguém porque essa pessoa não age como você gostaria?
Pode ser alguém que fala demais, que não presta atenção no que faz, que faz muito barulho, que não cumpre o que prometeu ou que simplesmente tem uma maneira de pensar muito diferente da sua.
Em geral, quando isso acontece, nossa primeira reação é pensar que o problema está na outra pessoa e que, se ela mudar seu comportamento, tudo ficará bem.
Mas será que o problema está realmente nela?
Talvez a gente precise aprender a olhar para os outros de uma maneira diferente, porque existe uma possibilidade que nem sempre consideramos: as pessoas não estão na nossa vida apenas para nos facilitar as coisas. Elas também podem ser – e quase sempre são – parte fundamental do nosso desenvolvimento.
E é justamente sobre isso que quero conversar contigo agora.
Os outros estão atrapalhando a nossa vida?
Quando não refletimos sobre a maneira como nos relacionamos com as pessoas, é comum enxergá-las como obstáculos à nossa felicidade.
Pense nas várias situações do dia a dia…
Queremos fazer alguma coisa, mas alguém nos interrompe; queremos tranquilidade, mas alguém faz barulho; esperamos que uma pessoa aja de determinada maneira, mas ela faz exatamente o contrário; estamos presos no trânsito e sempre tem um infeliz que anda a vinte por hora na nossa frente. A lista é interminável.
E, à medida que essas “pedras” vão se acumulando no nosso caminho, desenvolvemos raiva e azedamos nosso dia porque acreditamos que os outros estão atrapalhando nossa vida e impedindo que consigamos aquilo que desejamos.
Essa maneira de enxergar as pessoas e as situações tem muito a ver com a importância que damos a nós mesmos. Afinal, quando pensamos que a nossa felicidade depende de tudo acontecer do jeito que queremos, qualquer coisa que contrarie nossas expectativas passa a ser vista como um problema. É como se o mundo tivesse a obrigação de se adaptar às nossas necessidades e, quando isso não acontece, a culpa é sempre de algo ou alguém.
Mas será que as situações e as pessoas estão realmente atrapalhando o nosso desenvolvimento ou será que é a nossa maneira de enxergá-las que está equivocada?
Reflete sobre isso aqui com sinceridade…
Quando achamos que algo ou alguém nos atrapalha, é porque damos uma importância exacerbada a nós mesmos. Como gosto de dizer… é como se o universo girasse em torno do nosso umbigo.
Mas pensar assim condiz com a realidade da vida?
Certamente não.
Nem todas as pessoas serão gentis com a gente. Nem sempre conseguiremos o que queremos e muitas vezes as situações não sairão como desejamos.
E, por sua própria experiência de vida, você sabe que essa realidade é inegável.
Nesse sentido, temos duas possibilidades: reagir com raiva ou compaixão quando os outros nos contrariam ou quando as coisas não saem como esperado.
Essa segunda possibilidade parece absurda, mas é ela que permite que você viva em estado de felicidade e aceite os outros como eles são.
Vamos entender como isso é possível…
Não conseguimos desenvolver nossas melhores qualidades sozinhos
Todos nós buscamos a felicidade e fazemos isso buscando ser melhores.
Melhores no emprego, melhores na profissão, melhores pais ou melhores seres humanos.
Nesse sentido, quando pensamos em melhorar, é comum imaginar que precisamos estudar, meditar, refletir e trabalhar sobre nós mesmos. Tudo isso pode ser importante, mas existe um detalhe que às vezes passa despercebido: muitas das qualidades que queremos desenvolver só podem amadurecer quando nos relacionamos com outras pessoas.
Pense na paciência. Você pode ler dezenas de livros sobre o assunto e compreender perfeitamente o que significa ser paciente, mas é quando alguém faz alguma coisa que contraria suas expectativas que você tem a oportunidade de observar como sua mente reage. O mesmo acontece com a generosidade, a compaixão e a capacidade de amar.
Podemos falar sobre essas qualidades, mas é na relação com os outros que começamos a descobrir o quanto elas realmente estão presentes em nós.
Nesse sentido, os outros são muito importantes para o nosso desenvolvimento, porque nos oferecem inúmeras oportunidades de praticar aquilo que queremos cultivar. E não estou falando apenas das pessoas de quem gostamos ou com quem temos afinidade. Na verdade, são justamente aquelas que nos desafiam, que podem revelar aspectos da nossa mente que ainda precisamos compreender e transformar.
Imagine, por exemplo, que você queira assumir uma posição de liderança no seu emprego e, para isso, você sabe que é importante ser uma pessoa paciente. Se todas as pessoas ao seu redor agissem exatamente como você gostaria, talvez você tivesse poucas oportunidades de perceber o quanto ainda se irrita quando as coisas não acontecem do seu jeito.
Portanto, aquela pessoa que dificulta sua vida pode, sem perceber, lhe oferecer uma oportunidade para que você desenvolva uma qualidade importante.
Isso não significa que precisamos procurar situações desagradáveis ou que devemos gostar de tudo o que acontece. Significa apenas que podemos aprender a olhar para essas experiências de uma maneira diferente, reconhecendo que elas também podem contribuir para o nosso crescimento.
O que significa ver os outros como preciosos?
Existe um ensinamento espiritual que nos convida a ver todos os seres vivos como supremos, ou seja, a reconhecer a preciosidade da existência de cada um deles. À primeira vista, essa ideia pode parecer estranha. Afinal, como podemos considerar todas as pessoas tão importantes se sabemos que muitas delas têm comportamentos que nos incomodam, que cometem erros e que, às vezes, nos prejudicam?
A questão é que precisamos aprender a distinguir a pessoa das falhas que ela manifesta.
Quando olhamos para alguém e enxergamos apenas a raiva, o orgulho, a inveja ou a ignorância que aparecem em seu comportamento, corremos o risco de reduzir aquela pessoa justamente àquilo que gostaríamos que ela não tivesse. É como se disséssemos:
“Ela é assim, não tem jeito, e não há nada que eu possa fazer a respeito”.
Mas será que uma pessoa pode ser resumida aos seus piores momentos?
Pense em você mesmo. Certamente existem coisas que você já fez e das quais não se orgulha, atitudes que gostaria de ter tomado de outra forma e momentos em que foi dominado pela raiva, medo ou ansiedade. No entanto, você sabe que essas experiências não te representam e sabe que você pode aprender, mudar e desenvolver novas capacidades.
Então, por que seria diferente quando olhamos para os outros?
Assim como nós não somos apenas as nossas falhas, as outras pessoas também não precisam ser definidas pelas falhas delas. Podemos reconhecer que alguém age de maneira prejudicial e, ao mesmo tempo, compreender que aquele comportamento não precisa representar tudo o que essa pessoa é.
Essa distinção muda a maneira como nos relacionamos, deixando de transformar o outro em um inimigo e passando a perceber que existe algo em seu comportamento que precisa ser compreendido – assim como acontece conosco.
A pessoa não é a mesma coisa que suas falhas
Quando alguém age com raiva, é fácil olhar para essa pessoa e pensar: “Que pessoa raivosa!”. Mas, se observarmos com um pouco mais de cuidado, veremos que a raiva é um estado mental que surge devido a uma falha de interpretação da realidade que se dá em determinadas condições (você pode ler mais sobre isso aqui).
Pense em quantas vezes você mesmo reagiu de uma maneira que não gostaria de repetir.
Talvez tenha dito alguma coisa impulsivamente, tratado alguém com impaciência ou tomado uma decisão influenciado por uma emoção negativa. E depois que a situação passou, você conseguiu olhar para o que aconteceu de outra maneira e percebeu que poderia ter agido melhor.
Isso nos ajuda a compreender que os comportamentos mudam e que as pessoas podem aprender com suas experiências. Portanto, quando nos fixamos nas falhas de alguém, estamos olhando apenas para uma parte daquilo que essa pessoa manifesta, deixando de considerar seu potencial de transformação.
E aqui vale uma reflexão: se nós gostamos que as pessoas reconheçam nossas boas qualidades, por que temos tanta dificuldade em reconhecer as qualidades e o potencial dos outros?
Quando alguém acredita em nós, reconhece nossos esforços e nos incentiva a desenvolver nossas capacidades, geralmente nos sentimos acolhidos e motivados. É como se aquela pessoa nos ajudasse a enxergar algo positivo que talvez não estivéssemos percebendo com tanta clareza. Por outro lado, quando alguém se concentra apenas nos nossos defeitos, podemos nos sentir desvalorizados e perder a motivação para melhorar.
Então, se sabemos o quanto é importante que alguém enxergue nosso potencial, talvez possamos começar a oferecer aos outros o mesmo tipo de olhar.
Mas e aquela pessoa que eu não suporto?
Talvez você esteja pensando: “Tudo isso faz sentido Andres, mas existe uma pessoa com quem eu simplesmente não consigo me relacionar dessa maneira”.
Eu entendo e sei que pode ser bem difícil. Talvez alguém do trabalho, um familiar, um vizinho ou uma pessoa com quem você tem um conflito antigo.
Você até consegue desejar o bem das pessoas em geral, mas, quando pensa naquela pessoa específica, a raiva simplesmente toma conta de ti.
Mas acredite, essas pessoas são um presente, pois são uma oportunidade importante no nosso desenvolvimento.
Pensa comigo…
É relativamente fácil desejar que as pessoas de quem gostamos sejam felizes. O desafio aparece quando precisamos estender esse desejo àquelas que nos incomodam ou com quem temos dificuldades. Afinal, se nossa simpatia e afinidade dependem exclusivamente de gostarmos do comportamento de alguém, essas qualidades ficam limitadas às pessoas que correspondem às nossas expectativas.
Todos nós agimos dessa maneira.
Mas o que aconteceria se compreendêssemos que aquela pessoa que classificamos como chata ou insuportável deseja, assim como nós, ser feliz e não sofrer?
E se compreendêssemos que a pessoa “chata” está, na verdade, tão envolvida em seus estados mentais negativos que ela nem se dá conta de como ela gera sofrimento para ela mesma?
Isso certamente faria com que mudássemos a forma de ver o outro, substituindo pensamentos críticos por pensamentos compassivos, já que tomaríamos consciência de que a outra pessoa precisa de ajuda e não crítica.
Sei que é uma forma pouco usual de encarar as pessoas que nos incomodam, mas, do ponto de vista da lógica, faz sentido para você?
Isso não significa que precisamos concordar com certas atitudes, manter proximidade ou permitir que uma pessoa continue nos prejudicando. Significa apenas reconhecer que, por trás de um comportamento difícil, existe alguém que também experimenta emoções, desejos, medos e sofrimentos, e que talvez ainda não tenha aprendido a lidar com eles de uma maneira mais construtiva.
Você concorda comigo que é bastante difícil lidarmos com nossas próprias emoções negativas? É só se lembrar dos ímpetos de raiva que você tem quando acontece algo que te desagrada. Quantas vezes você já deu uma “patada” em alguém que não tinha nada a ver com seus problemas mas estava no lugar errado e na hora errada?
Quando desenvolvemos a sabedoria de olhar para os outros dessa forma, deixamos de enxergá-los apenas como desagradáveis e começamos a aceitá-los como eles são, compreendendo que precisam de ajuda, em vez de repressão.
Apontar as falhas dos outros resolve alguma coisa?
Vamos pensar em uma situação bastante comum. Você percebe que alguém está agindo de maneira arrogante e sente vontade de mostrar a essa pessoa o quanto ela está errada.
Talvez você queira que ela reconheça suas falhas, mude de comportamento e passe a agir de uma maneira mais adequada.
Mas será que apontar os defeitos de alguém é sempre a melhor maneira de ajudá-lo?
É claro que existem situações em que precisamos conversar sobre comportamentos prejudiciais, oferecer orientações ou estabelecer limites. O ponto aqui não é deixar de falar sobre aquilo que precisa ser corrigido, mas observar nossos estados mentais, qual é a nossa intenção e de que maneira falamos com a outra pessoa.
Se nossa intenção é apenas provar que estamos certos, humilhar alguém ou aliviar nossa própria irritação, dificilmente contribuiremos para uma mudança positiva. Por outro lado, quando nos aproximamos com respeito, clareza e disposição para compreender, criamos condições favoráveis para uma conversa construtiva.
Além disso, precisamos reconhecer que cada pessoa tem seu próprio caminho de aprendizado.
Podemos oferecer ajuda, compartilhar experiências e agir de maneira coerente com aquilo em que acreditamos, mas não temos como fazer o trabalho interior pelo outro.
E existe uma consequência interessante quando compreendemos isso: começamos a perceber que nossa responsabilidade principal não é controlar a mente das outras pessoas, mas cuidar da nossa própria maneira de pensar, falar e agir.
As falhas que vemos nos outros também podem nos ensinar sobre nós mesmos
Existe ainda outro aspecto que vale a pena observar. Às vezes, aquilo que mais nos incomoda no comportamento de alguém pode revelar alguma coisa sobre a nossa própria mente.
Imagine que você se irrite profundamente quando alguém recebe reconhecimento por um trabalho. Talvez a pessoa tenha sido elogiada e você pense que ela não merece aquele reconhecimento. Mas, se observar sua reação com sinceridade, poderá descobrir que existe ali uma comparação, uma necessidade de ser valorizado ou até mesmo uma dificuldade em lidar com o sucesso de outra pessoa.
Isso não significa que toda falha que enxergamos nos outros esteja necessariamente presente em nós da mesma maneira. Seria simplificar demais as coisas. Entretanto, nossas reações podem revelar expectativas, inseguranças, julgamentos e tendências que merecem ser observados.
Nesse sentido, as pessoas podem funcionar como um espelho. Não porque sejam iguais a nós em tudo, mas porque a maneira como reagimos a elas pode nos ajudar a compreender aspectos da nossa própria mente que, de outra forma, talvez passassem despercebidos.
Portanto, quando alguém nos incomoda, em vez de perguntar apenas “O que há de errado com essa pessoa?”, podemos acrescentar uma segunda pergunta: “O que a minha reação a essa pessoa está me mostrando sobre mim?”
Essa mudança de perspectiva é importante porque nos tira da posição de alguém que apenas julga e nos coloca na posição de alguém que também está disposto a aprender.
Como podemos mudar a maneira de olhar para os outros?
Talvez você esteja pensando que tudo isso parece muito bonito na teoria, mas que, na prática, é difícil manter uma mente amorosa quando alguém nos provoca, nos desrespeita ou age de uma maneira que consideramos injusta. E eu concordo com você: não é algo que conseguimos transformar de uma hora para outra, especialmente porque estamos acostumados a reagir de acordo com nossas preferências e expectativas.
Mas podemos começar com algo simples: observar a maneira como enxergamos as pessoas e perceber quando estamos reduzindo alguém às suas falhas.
O exercício é simples, mas requer muita prática, pois exige que pensemos de forma completamente diferente do que nos ensinaram.
O primeiro passo é não reagir instintivamente. Procure apenas silenciar e observar a situação “olhando pelo lado de fora” como se você estivesse sentado em uma cadeira de cinema, observando a si mesmo dentro da cena de um filme – gosto de chamar essa técnica de “A ida ao cinema”.
O passo seguinte é compreender que a pessoa está dominada por pensamentos negativos que ela não tem nenhum controle. É nessa hora que você pode trocar o sentimento de raiva que sente por ela, por um sentimento de compaixão, entendendo que ela está agindo como uma marionete da própria mente e que, em vez de repressão, ela precisa de ajuda.
Lembre-se de que a pessoa também deseja ser feliz, que também enfrenta dificuldades e que seu comportamento não define quem ela é.
Finalmente, imbuído desse sentimento de compaixão, procure o diálogo, expressando seu ponto de vista com uma mente pacífica ou simplesmente deixe a coisa passar, já que a pessoa ainda não está em condições de compreender seu ponto de vista.
É difícil agir assim?
Sim, é muito, mas com o tempo essa prática nos ajuda a cultivar pensamentos virtuosos como a paciência e a compaixão e nos dá sabedoria para passar pelas situações difíceis da vida.
Nesse sentido, não precisamos esperar que os outros mudem para começarmos a transformar a maneira como nos relacionamos com eles, já que a iniciativa será sempre da pessoa que possuir maior controle de sua mente.
Os outros são parte do nosso caminho
Quando pensamos em desenvolvimento espiritual, podemos imaginar que se trata de uma jornada individual, como se precisássemos subir sozinhos uma montanha até alcançar um estado de maior sabedoria e paz interior. Mas, se observarmos com cuidado, veremos que muitas das qualidades que queremos desenvolver dependem diretamente da nossa relação com os outros.
É por meio dessas relações que temos oportunidades de praticar paciência, generosidade, amor e compaixão. São essas relações que, muitas vezes, revelam nossas limitações e nos mostram onde ainda precisamos trabalhar. E, quando aprendemos a olhar para as pessoas dessa maneira, até mesmo as situações difíceis podem ganhar um significado diferente.
Isso não quer dizer que precisamos considerar agradáveis todos os comportamentos ou que devemos permanecer em relações prejudiciais. Podemos reconhecer as falhas, estabelecer limites e agir para interromper aquilo que causa sofrimento, sem transformar a pessoa inteira em alguém que não merece respeito ou que não tem possibilidade de mudar.
A beleza de aceitar os outros como eles são talvez esteja justamente nisso: conseguir enxergar a pessoa para além daquilo que nos incomoda, reconhecendo tanto suas dificuldades quanto seu potencial.
E, quando fazemos isso, também abrimos espaço para olhar para nós mesmos com mais honestidade, porque percebemos que todos estamos em processo de aprendizado e que ninguém precisa ser reduzido aos seus erros.
Talvez, então, a pergunta não seja apenas “Como faço para aceitar aquela pessoa?”, mas também:
“O que posso aprender com essa relação e que tipo de pessoa quero me tornar a partir dela?”
Porque, no fim das contas, os outros não são apenas pessoas com quem precisamos aprender a conviver. Eles também são parte essencial das oportunidades que temos para desenvolver nossas melhores qualidades.
A beleza de aceitar as pessoas como elas são é descobrir que eles estão aqui para nos ajudar e não nos atrapalhar.
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