Você já parou para pensar que aquilo que você mais deseja pode ser justamente aquilo que mais te faz sofrer?

Pensa comigo…

Existem algumas coisas que praticamente todos nós desejamos: uma boa remuneração, uma boa casa, talvez um bom carro, viajar, ter uma família em harmonia, ter reconhecimento, sucesso, boa reputação e pessoas que gostam da gente.

Se pararmos para refletir, dedicamos grande parte das nossas vidas correndo atrás dessas coisas, porque acreditamos que elas nos farão felizes.

O curioso é que quando as conquistamos, ficamos realmente satisfeitos por algum tempo.

Pensa em algo que você queria muito e conseguiu conquistar. Pode ser o carro novo, a viagem, uma determinada posição profissional ou até mesmo um elogio de alguém importante para ti.

Você concorda comigo que, depois de algum tempo, a sensação de felicidade diminui e acaba sendo substituída por um outro desejo, repetindo esse ciclo indefinidamente?

Então a pergunta que merece reflexão é: Por que funcionamos assim?

E a resposta é: porque fomos ensinados a procurar a felicidade no lugar errado.

Onde você acredita que está a sua felicidade?

Acompanha meu raciocínio…

Se eu te perguntar “O que você gostaria de ter agora para se sentir mais feliz?”

É provável que me responda que gostaria de ter algumas coisas. Por exemplo:

“Quero ganhar mais dinheiro.”

“Quero comprar uma casa.”

“Gostaria de viajar.”

“Desejo encontrar alguém.”

“Quero que meus filhos sejam felizes.” e

“Quero ter sucesso profissional.”

Mas se eu te perguntar “Por que você quer essas coisas?”, é provável que você me responda: “Porque se eu as conquistar, ficarei feliz.”

É a partir desse ponto que começa a nossa reflexão.

Via de regra, fomos acostumamos a organizar nossas vidas em torno de dois sentidos opostos: quero ser feliz e não quero sofrer.

Até aí, tudo bem. Todos os seres vivos são assim, inclusive os animais.

O problema começa quando acreditamos que a felicidade está depositada exclusivamente nas coisas que são externas a nós.

Por exemplo, se eu acredito que a felicidade está na casa nova, desejarei comprá-la. Se acredito que está naquele relacionamento, desejarei aquela pessoa. Quando acredito que está no dinheiro, vou querer acumulá-lo cada vez mais. Se acredito que está nos elogios, desejarei recebê-los e quando acredito que está na quantidade de seguidores no Instagram, desejarei conquistá-los.

E, pouco a pouco, aquilo que era simplesmente algo que eu gostaria de ter, passa a ser algo que preciso para ser feliz.

Esse desejo tem nome e se chama apego.

Pensa no seguinte…

Se felicidade e infelicidade são estados mentais, então felicidade e infelicidade estão dentro de nós e não nas coisas externas.

Isso significa que não dependemos das condições exteriores para experimentar paz e bem-estar.

É por essa razão que não faz sentido sofrermos quando não conquistamos algo exterior.
Mas, por nossa própria experiência, sabemos que não é isso que acontece e quando nossos desejos não são atendidos, sofremos.

E por que é assim?

Essa pergunta merece uma boa reflexão porque trata da origem do problema.

Todos nós viemos para este mundo com uma espécie de “defeito de fabricação”. Não estou dizendo, obviamente, que exista alguma coisa errada com o ser humano, mas que nascemos com uma tendência muito forte de enxergar a nós mesmos como um “eu” sólido, separado de tudo o que existe ao nosso redor.

Pensa comigo: eu estou aqui e você está aí. Quando olhamos para as outras pessoas, pensamos: “Eles estão lá e eu estou aqui”. Algo que parece óbvio, não é verdade? Afinal, eu tenho o meu corpo, os meus pensamentos, os meus desejos e as minhas experiências, enquanto você tem os seus. E, a partir dessa percepção, começamos a construir a sensação de que existe um “eu” independente, separado do resto do mundo e, de certa maneira, no centro de tudo.

O problema é que esse “eu” passa a enxergar a realidade a partir das próprias necessidades. O que me agrada é bom e o que me desagrada é ruim; aquilo que me traz prazer deve ser conquistado e aquilo que ameaça a minha segurança precisa ser afastado. E, sem perceber, começamos a organizar a nossa vida inteira em função da proteção e da satisfação desse “eu”.

É nesse contexto que surgem estados mentais como o apego, a raiva e a ansiedade.

Quando acredito que alguma coisa externa é necessária para que esse “eu” esteja bem, minha mente começa a se agarrar a esse desejo.

Por exemplo, se acredito que preciso daquela casa para ser feliz, desenvolvo apego à casa. Quando acredito que preciso daquele relacionamento para ser feliz, desenvolvo apego àquela pessoa e quando acredito que preciso de dinheiro, reconhecimento ou elogios para me sentir bem, condiciono minha felicidade a essas coisas.

E perceba uma coisa interessante: quanto mais acredito que preciso dessas coisas para estar bem, mais vulnerável me torno à possibilidade de perdê-las. É por isso que o apego e o medo de perder caminham lado a lado. Aquilo que deveria simplesmente me proporcionar prazer passa a ocupar um espaço enorme na minha mente, porque agora eu não quero apenas desfrutar daquela coisa; eu preciso garantir que ela continue existindo para que o meu “eu” continue se sentindo seguro e feliz.

É justamente aí que começa o sofrimento.

Eu sei que esse tipo de raciocínio é o oposto de tudo que nos ensinaram até hoje e é por isso que num primeiro momento pode ser difícil aceitar essas ideias.

Então vamos analisar essa questão com mais profundidade.

Pensa no seguinte…

Existe uma diferença enorme entre desfrutar de alguma coisa e ser apegado a ela.

Dinheiro não é ruim e é até necessário. Uma casa bonita não é ruim. Comida, sexo, viagens, trabalho e redes sociais não são ruins. Até mesmo os elogios não são ruins.

O problema não está nas coisas em si, mas no significado que damos a elas.

Uma coisa é desfrutar de algo. Outra é acreditar que preciso desse algo para ser feliz.

Quando eu preciso, surge o apego que gera ansiedade, raiva e infelicidade.

O apego transforma prazer em sofrimento

Imagine que você está em um hotel maravilhoso. Você chega e encontra uma suíte confortável, uma piscina, uma praia linda, comida excelente e tudo aquilo que você gostaria de ter. Você desfruta, aproveita e se sente feliz.

Mas há algo interessante na sua relação com o hotel: você não tem apego àquele lugar porque sabe que ele não é seu e nunca será. Você sabe que ficará ali alguns dias e depois irá embora. Então você aproveita e, quando chega a hora de partir, você simplesmente pega suas coisas e vai embora.

Agora imagine se você começasse a acreditar: “Eu preciso ficar aqui.” “Isso tem que continuar.” “Preciso desse lugar para ser feliz.”

Percebe a diferença? No primeiro exemplo você desfruta de forma desapegada e não sofre. No segundo, seu apego ao lugar te faz sofrer.

É exatamente isso que acontece com tudo aquilo a que nos apegamos: sofremos por não ter, ou sofremos por medo de perder.

Em outras palavras, nos tornamos dependentes das circunstâncias externas sempre que condicionamos nossa felicidade a elas.

Então o problema não é o prazer, mas o apego ao prazer.

“Mas então eu não devo querer nada?”

Não. Não há nenhum problema em desejar, porque desapego não significa abandonar a vida. Tampouco significa deixar de trabalhar, não querer ganhar dinheiro, não desejar uma casa boa ou viver uma vida sem prazer.

Desapego é desfrutar das coisas sem acreditar que elas são a fonte permanente de felicidade, já que prazer e felicidade são coisas diferentes. Experiências que vêm do que é externo podem produzir prazer, mas isso não significa que sejam capazes de produzir felicidade duradoura.

Talvez o exemplo mais emblemático dessa constatação seja a história da pamonha que o professor Clóvis de Barros gosta de contar.

Num primeiro momento, a pessoa faminta come a pamonha se deleitando com seu sabor mas, depois de três ou quatro pamonhas o alimento passa de desejado a repugnante.

Pense naquelas pessoas que conquistaram tudo na vida. Podem ser os famosos, as modelos, os influenciadores com milhões de seguidores ou os extremamente ricos que apesar de terem conquistado praticamente tudo que desejaram, continuam enfrentando sofrimento e insatisfação.

É como se todos sofressem da “síndrome da pamonha” porque descobriram que o que conquistaram é sinônimo de prazer instantâneo, mas não de felicidade duradoura.

O mesmo acontece com todos nós, mas em uma escala diferente. Talvez o exemplo mais visível dessa constatação seja o celular. Você se lembra da sensação de satisfação que sentiu quando comprou esse celular que está usando agora?

Se essa compra já aconteceu há algum tempo, é bem provável que essa sensação já não esteja tão presente em ti.

Além disso, é fácil perceber que aquela euforia que você sentiu com o aparelho novo é facilmente substituída pela raiva quando seu celular começa a travar e já não consegue mais armazenar suas fotos, músicas e vídeos.

Se você parar para pensar, verá que isso acontece não apenas com o celular, mas com tudo em nossas vidas.

Então onde está a felicidade?

Pense no seguinte…

Se a fonte de felicidade não está fora, ela só pode estar em um lugar: dentro de nós.

Tomar consciência desse fato é libertador porque permite que não entreguemos o controle da nossa mente para as circunstâncias da vida.

Ter essa clareza permite que, quando alguém me elogie, eu fique feliz, mas se não me elogiar eu continuo feliz. Quando eu ganho dinheiro, fico feliz, mas se perco não fico triste. E se consigo aquela promoção que tanto queria, fico feliz, mas se não consigo, não sofro por isso.

Percebe? Ao não deixar que sua mente seja comandada pelo que acontece do lado de fora, você mantém seus pensamentos estáveis e essa estabilidade traz paz interior que se traduz em felicidade.

“Mas Andres, como eu faço para me desapegar das coisas se elas parecem tão agarradas a mim?”

De fato, não é nada fácil se desapegar porque desde que nascemos fomos treinados a buscar felicidade no que é externo.

Além disso, não conseguimos mudar nossa forma de pensar da noite para o dia.

Ainda assim é fundamental fazermos alguma coisa pois já percebemos que, ao contrário do que desejamos, continuar a buscar a felicidade do lado de fora só nos manterá nesse ciclo sem fim de prazer e sofrimento.

Como se livrar do apego e do sofrimento?

A compreensão de que o apego é uma das principais fontes do nosso sofrimento traz, naturalmente, a pergunta: “Como fazemos então para diminuir esse apego?”

Não existe uma mudança de pensamento que aconteça de uma hora para outra. Afinal, passamos a vida inteira sendo treinados a acreditar que a felicidade depende daquilo que conseguimos conquistar e manter. Portanto, se queremos mudar essa forma de se relacionar com aquilo que desejamos, precisamos treinar nossa mente para perceber as coisas de forma diferente.

Uma das maneiras mais efetivas de se fazer isso é compreender a impermanência.
Você provavelmente já passou por alguma situação ruim em que alguém tentou te consolar dizendo: “Calma, vai passar”. Uma frase simples, que muitas vezes parece até banal, mas traz consigo uma verdade profunda: tudo realmente passa.

A roupa que hoje é nova um dia ficará velha e você a descartará. O celular que você acabou de comprar será substituído por outro. Aquele emprego que um dia começou, terminará. O relacionamento que começa, se transforma e pode terminar e aquilo que hoje parece extremamente importante pode, daqui a alguns anos, já não ser tão importante assim.

Isso é a impermanência: entender que nada permanece exatamente como está.

E quando interiorizamos essa compreensão, nossa maneira de nos relacionarmos com o que é externo muda. 

Se eu sei que aquilo que tenho hoje, não permanecerá para sempre, começo a desfrutar sem me agarrar. Quando lembro que uma situação difícil vai passar, consigo atravessá-la com menos sofrimento. E quando compreendo que até mesmo a minha própria vida é impermanente, começo a perceber que não faz sentido passar meus dias tão preocupado em acumular, conquistar e proteger coisas que, inevitavelmente, deixarei para trás.

É justamente nesse ponto que pensar na morte se torna uma prática tão poderosa, já que a morte não é outra coisa senão a expressão máxima da impermanência.

Sei que é uma ideia que pode parecer, à primeira vista, bastante desconfortável e nossa primeira reação ao tocar nesse assunto é pensar: 

“Mas por que eu pensaria na morte? Isso só vai me deixar mais triste!”.

Pois é, mas ainda que pareça contraditório, pensar na morte pode ser uma das formas mais poderosas de diminuir o nosso apego às coisas, porque pensar na morte é reconhecer que as coisas não duram, que aquilo que começa termina, que aquilo que surge desaparece, que os momentos passam, que as pessoas mudam, que nossos desejos se transformam, que nosso corpo muda, e que, em algum momento, a própria vida termina.

Essa constatação nos faz dar menos importância às coisas externas que achamos que são fonte de felicidade, afinal de contas se dinheiro, conquistas e reconhecimentos terminam, por que condicionar minha felicidade a eles?

E quando levamos essa reflexão até as últimas consequências, percebemos também que o simples fato de estarmos vivos já é algo extraordinário.

Sei que vai parecer estranho, mas pense no seguinte… você não é uma barata, um rato ou um animal de estimação.

Você teve a oportunidade de nascer como um humano, que pensa, raciocina e que pode controlar suas emoções a partir do momento em que você entende sua mente.

Além disso é provável que sua condição de vida seja infinitamente melhor que a de pessoas que estão no meio de guerras, que fugiram de seus países apenas com a roupa do corpo ou que lutam contra uma doença que não tem cura.

É nesse momento que começamos a nos dar conta de que temos tudo que precisamos para ser felizes.

Então a pergunta deixa de ser apenas “O que eu ainda preciso conquistar para ser feliz?” e passa a ser “Como eu descubro a felicidade dentro de mim, independentemente do que acontece do lado de fora?”

É nesse momento que começamos a nos dar conta de que talvez já tenhamos dentro de nós aquilo que estamos procurando do lado de fora.

Então dá para viver sem apego?

Dá.

E isso não significa viver sem prazer, significa apenas aprender a desfrutar da vida de outra maneira, como se estivéssemos em um grande hotel.

Quando estamos em um hotel, aproveitamos os mimos no quarto, usamos a piscina, comemos bem e desfrutamos do local, mas sabemos que, em algum momento, teremos que ir embora.

Talvez a vida possa ser vivida assim: “Se tenho isso aqui, então vou desfrutar, mas se em algum momento não tenho mais continuo bem.”

“Essa pessoa está na minha vida e eu a amo, mas caso ela vá embora continuarei amando-a.”

“Se hoje tenho dinheiro, vou utilizá-lo bem, mas se ele acabar ficarei bem também.”

“Quando sou elogiado por um trabalho me sinto bem, mas caso não seja, permaneço bem também.”

Isso é desapego.

Não é deixar de desfrutar. 

É desfrutar sem se agarrar.

Talvez menos seja realmente mais

Quando diminuímos o apego às coisas externas, sofremos menos e desfrutamos mais.

Parece contraditório, mas é exatamente aí que está o segredo da felicidade duradoura: quanto menos precisamos das coisas para sermos felizes, mais conseguimos desfrutar delas. 

Isso acontece porque, quando condiciono minha felicidade a alguma coisa, desenvolvo medo de perdê-la, mas quando não me apego a ela, posso simplesmente apreciá-la.

É a diferença entre “eu preciso disso para ser feliz” e “eu gosto disso, mas posso ser feliz sem isso.” 

Uma pequena mudança de pensamento, mas uma mudança enorme na maneira de viver.

Então, qual é o problema?

O problema não é o dinheiro, a casa, o carro, a comida, o prazer, os relacionamentos, os elogios e a reputação.

O problema é o apego a eles. É acreditar que alguma coisa externa tem o poder de produzir a felicidade que estamos procurando. E, por acreditar nisso, passamos a vida correndo atrás de coisas que nunca poderão nos dar a felicidade permanente que buscamos.

Nesse sentido, a grande pergunta não é “O que eu preciso conquistar para ser feliz?”, mas, sim, “Como eu posso me desapegar para descobrir a felicidade que já existe dentro de mim?”.

Talvez a liberdade não esteja em conseguir tudo aquilo que queremos, mas em descobrir que não precisamos de tudo aquilo que queremos para ser felizes.

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Andres Postigo
Andres Postigo

Andres Postigo é autor, palestrante e estrategista, dedicado a explorar a relação entre espiritualidade, propósito, desenvolvimento humano, liderança e realização profissional. Com décadas de experiência no mundo dos negócios e um profundo interesse pelo desenvolvimento da mente, traduz ensinamentos de sabedoria espiritual para uma linguagem prática e aplicável à vida cotidiana, ajudando pessoas a encontrar mais sentido, equilíbrio, clareza e paz interior em meio aos desafios da vida moderna.

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