Como lidar com pessoas difíceis
Quando os outros, por inveja ou raiva, prejudicarem-me ou insultarem-me, que eu tome sobre mim a derrota e ofereça-lhes a vitória.
Confesso que, quando ouvi essa frase pela primeira vez, minha reação foi de completa rejeição.
Como assim aceitar a derrota?
Pior ainda... oferecer a vitória?
Se alguém deliberadamente tenta me prejudicar, fala mal de mim pelas costas, age por inveja ou procura me humilhar, por que eu deveria aceitar isso? E mais, por que eu deveria responder de maneira positiva?
Sejamos sinceros.
Esse ensinamento parece quase um convite para sermos fracos, passivos ou até ingênuos.
Afinal, fomos educados a acreditar exatamente no contrário.
Aprendemos que devemos nos defender, reagir, mostrar que estamos certos, devolver na mesma moeda e jamais deixar barato.
Se alguém nos agride, revidamos.
Quando nos critica, sentimos necessidade de provar que ele está errado.
Se tentam nos diminuir, queremos mostrar que somos melhores.
Tudo isso parece extremamente natural e talvez você esteja pensando exatamente dessa maneira enquanto lê estas palavras.
E, se for o caso, saiba que essa reação é completamente compreensível, no entanto, talvez exista uma pergunta que precisa ser analisada com atenção.
Será que reagimos dessa maneira porque ela realmente produz felicidade? Ou simplesmente porque nunca aprendemos outra forma de responder?
Essa pergunta muda completamente a direção da conversa, porque talvez o problema nunca tenha sido a pessoa que nos ofendeu.
Talvez o verdadeiro desafio seja descobrir o que acontece dentro da nossa própria mente quando alguém nos machuca.
É curioso perceber como basta uma única palavra atravessada para que percamos completamente a paz.
Às vezes pode ser uma crítica, um comentário injusto, uma atitude de desrespeito ou mesmo uma mensagem ignorada.
E, em poucos segundos, nossa mente começa a construir argumentos, reviver situações antigas, imaginar respostas e alimentar um diálogo interno que pode durar horas, dias ou mesmo semanas.
Enquanto isso, a outra pessoa muitas vezes já seguiu com a própria vida e quem continua sofrendo somos nós.
É por isso que vale a pena refletirmos com calma sobre aquele ensinamento inicial.
Talvez “aceitar a derrota” não tenha absolutamente nada a ver com perder.
E talvez “oferecer a vitória” não signifique permitir que o outro faça o que quiser.
Provavelmente exista algo muito mais profundo escondido nessas palavras.
Porque, antes de aprendermos a lidar com as pessoas difíceis, precisamos compreender por que elas exercem tanto poder sobre nós.
Como nossa mente funciona
Existe uma tendência muito natural da mente humana que é, quase sempre, enxergar a realidade a partir de um único ponto de vista: o nosso.
Quando algo acontece, nossa primeira pergunta costuma ser:
"E eu?"
Como isso me afeta?
Como isso interfere nos meus planos?
E como isso muda a minha vida?
De fato, não fazemos isso por mal.
É simplesmente o modo como fomos acostumados a pensar.
Desde pequenos aprendemos que precisamos cuidar de nós mesmos, proteger nossos interesses e buscar a nossa felicidade.
À primeira vista, essas coisas parecem fazer todo o sentido.
Afinal, se eu não cuidar de mim, quem cuidará?
Só que existe um detalhe curioso.
Quando transformamos essa ideia na regra que orienta toda nossa vida, começamos a interpretar praticamente tudo como algo pessoal.
Se alguém nos critica, sentimos que nossa identidade foi atacada.
Se alguém recebe um reconhecimento maior que o nosso, sentimos que perdemos espaço.
E se alguém discorda de nós, entendemos aquilo como uma ameaça.
Aos poucos, o mundo inteiro passa a girar ao redor do nosso próprio bem-estar.
E é justamente aí que começa o sofrimento.
Imagine a seguinte situação: um trem que perdeu completamente os freios se aproxima de uma bifurcação.
No caminho da direita há apenas uma pessoa. No da esquerda, cem pessoas.
Se você pudesse decidir para onde o trem seguiria, qual seria a escolha mais razoável?
Pensando de forma lógica, quase todo mundo responde da mesma maneira.
Salvar cem pessoas parece muito mais sensato do que salvar apenas uma.
Agora imagine que aquela única pessoa seja você.
A resposta continua sendo tão simples?
De repente, aquilo que parecia um raciocínio puramente lógico deixa de parecer tão lógico assim.
Para resumir, percebemos que existe algo dentro de nós que insiste em colocar nossa felicidade acima da felicidade de qualquer outra pessoa.
E, curiosamente, fazemos isso acreditando que essa é a melhor maneira de sermos felizes.
Mas será que é mesmo?
Talvez essa seja uma das maiores ilusões da nossa vida, porque quanto mais nossa atenção fica concentrada exclusivamente em nós mesmos, mais sensíveis nos tornamos a qualquer crítica, qualquer perda e qualquer dificuldade.
É como olhar continuamente para uma pequena ferida. Quanto mais prestamos atenção nela, maior ela parece ficar.
Talvez seja justamente por isso que algumas pessoas parecem carregar um sofrimento muito maior do que as circunstâncias realmente justificariam.
Não porque suas dificuldades sejam maiores, mas porque toda a atenção da mente permanece voltada para elas mesmas.
E é exatamente nesse ponto que surge uma possibilidade completamente diferente de enxergar a vida.
Uma possibilidade que, à primeira vista, parece estranha, mas que pode transformar profundamente a maneira como nos relacionamos com os outros… e com nós mesmos.
Uma das coisas mais bonitas da natureza humana, é que essa tendência de nos colocarmos no centro não é permanente e pode ser transformada.
Provavelmente você já viveu alguma situação que demonstra isso.
Imagine uma mãe ao lado do filho internado em um hospital.
Ela passa noites sem dormir. Esquece de comer, cancela compromissos, abre mão do conforto, do descanso e até dos próprios planos. Se fosse necessário, trocaria de lugar com o filho sem pensar duas vezes.
O que faz uma pessoa agir dessa maneira?
Certamente não é obrigação.
Também não é um cálculo racional de vantagens e desvantagens. É algo muito mais profundo.
É o amor.
E quando o amor aparece, algo curioso acontece. A felicidade do outro passa a importar tanto quanto e, às vezes, até mais do que a nossa própria felicidade.
Por alguns instantes, deixamos de ser o centro do universo.
E, curiosamente, isso não nos torna menores.
Nos torna maiores.
O mesmo acontece quando sentimos uma compaixão genuína por alguém.
Perceba que compaixão não é sentir pena. Pena coloca o outro abaixo de nós.
A compaixão faz exatamente o contrário: ela nos aproxima. É a capacidade de olhar para o sofrimento de outra pessoa e desejar sinceramente que ela se liberte dele.
Quando essas duas qualidades começam a ocupar espaço dentro de nós, algo muda silenciosamente.
As situações deixam de ser avaliadas apenas pela pergunta: “Como isso me afeta?”
E passamos a perguntar:
“O que essa pessoa está vivendo para agir dessa maneira?”
Essa mudança parece pequena, mas ela transforma completamente nossa forma de enxergar os conflitos.
Pense em uma cena bastante comum: você está passeando em um shopping e vê uma criança de três ou quatro anos passeando com os pais.
De repente, ela vê um brinquedo e pede que os pais o comprem.
No entanto, os pais explicam que não é o momento, que ela já ganhou presentes recentemente ou que simplesmente não é possível.
Nesse meio tempo, a criança começa a gritar.
Chora.
Se joga no chão.
Diz que eles são os piores pais do mundo.
Afirma que não os ama mais e talvez até diga que prefere outra família.
Quem já conviveu com crianças sabe que isso acontece.
Agora observe a reação dos pais.
Você acredita, por um instante sequer, que aquela criança realmente deixou de amar seus pais?
Provavelmente não. Ela só está tomada por emoções que ainda não sabe administrar.
Ela não compreende a própria frustração. Não consegue controlar o impulso e sua mente está dominada pelo desejo daquele momento.
É justamente por isso que, nessa hora, em vez dos pais sentirem raiva, eles normalmente sentem paciência.
Mais do que isso.
Sentem compaixão.
O sofrimento da criança se torna evidente.
Ela não está apenas causando um problema.
Ela está sofrendo por estamos mentais que ela nem tem consciência.
Agora faça um pequeno exercício.
Retire a criança da cena.
Coloque, em seu lugar, um adulto.
Um colega de trabalho que grita.
O motorista que desce do carro para discutir no trânsito.
Um cliente agressivo.
O familiar que ofende.
Ou uma pessoa que espalha mentiras sobre você.
O que mudou?
Fisicamente, quase tudo.
Mas, do ponto de vista da mente, talvez muito menos do que imaginamos.
Assim como a criança, aquela pessoa também está sendo conduzida por emoções que ela não consegue controlar.
A diferença é que o corpo cresceu, mas as emoções, muitas vezes, continuam tão desorganizadas quanto antes.
Isso não significa que ela esteja certa.
Nem que suas atitudes devam ser aceitas passivamente.
Significa apenas reconhecer um fato simples: ninguém que esteja em paz humilha outra pessoa.
Ninguém em paz sente prazer em ferir.
E ninguém em paz vive dominado pela inveja, pela raiva ou pela necessidade de diminuir os outros.
Toda agressão é, antes de tudo, um sinal de sofrimento.
Quando conseguimos enxergar isso, acontece um insight muito interessante.
A necessidade de revidar começa a perder força.
Não porque nos tornamos fracos, mas porque compreendemos que existe alguém sofrendo diante de nós.
E essa compreensão muda a motivação da nossa resposta.
Talvez seja justamente por isso que as pessoas mais difíceis da nossa vida sejam também aquelas que mais aceleram o nosso crescimento.
Elas revelam nossas impaciências.
Nossos medos.
Nossa necessidade de reconhecimento e nossa dificuldade em abrir mão da razão.
Em outras palavras, toda pessoa difícil revela exatamente o quanto ainda precisamos treinar nossa própria mente.
É claro que isso está longe de ser fácil.
Na maioria das vezes, nossa primeira reação continuará sendo a irritação.
A diferença é que, aos poucos, começamos a perceber que existe uma escolha.
Podemos alimentar a raiva ou alimentar a compreensão.
Podemos responder ao sofrimento com mais sofrimento ou interromper esse ciclo.
É justamente aqui que aquela frase do início começa a fazer sentido.
Aceitar a derrota não significa desistir da verdade.
Não significa fingir que nada aconteceu.
Muito menos permitir que injustiças continuem acontecendo.
Significa abandonar uma necessidade profundamente enraizada dentro de nós: a necessidade de vencer toda discussão, de ter sempre a última palavra e de provar, a qualquer custo, que estamos certos.
Porque, quando essa necessidade desaparece, surge espaço para algo muito maior.
Surge espaço para agir movido não pelo orgulho, mas pelo desejo sincero de diminuir o sofrimento presente naquela situação.
E isso muda completamente a pergunta que fazemos diante de um conflito.
Em vez de pensar apenas “Como posso vencer?”, começamos a perguntar:
“Qual atitude realmente ajudará nesta situação?”
É nesse ponto que descobrimos que a compaixão, por si só, não é suficiente.
Ela precisa caminhar ao lado de outra qualidade igualmente importante: a sabedoria.
É comum imaginarmos que uma pessoa compassiva é alguém que simplesmente aceita tudo.
Alguém incapaz de dizer “não”.
Ou alguém que evita conflitos a qualquer custo.
Mas basta refletirmos por alguns instantes para perceber que isso não faz sentido.
Só para exemplificar, imagine um pai que, movido por amor, atende a todos os desejos do filho.
A criança quer comer apenas doces.
Ele permite.
Não quer ir à escola.
Ele concorda.
Faz birra para ganhar um brinquedo.
Ele compra.
À primeira vista, pode parecer um gesto de carinho, mas, na realidade, é justamente o contrário.
Ao evitar qualquer frustração, esse pai está impedindo o filho de desenvolver maturidade e está alimentando comportamentos que, mais cedo ou mais tarde, produzirão sofrimento.
Nesse sentido, percebemos que boas intenções nem sempre produzem bons resultados.
E é por isso que a compaixão deve andar de mãos dadas com a sabedoria.
A compaixão responde à pergunta “Por que agir?”
E a sabedoria responde a “Como agir?”
As duas precisam caminhar juntas.
Existe uma história muito interessante que ilustra isso.
Conta-se que um homem encontrou um grande peixe ainda vivo à beira de uma estrada.
O animal havia caído da carroça de um pescador e se debatia tentando sobreviver.
Comovido, o homem pegou o peixe cuidadosamente e o levou até um pequeno lago próximo dali.
Foi embora feliz, acreditando ter salvado uma vida.
Dias depois, descobriu que o grande peixe havia devorado todos os peixes menores daquele lago.
Revoltados, os moradores que agora se viram sem peixes para se alimentarem, acabaram matando também o peixe que ele havia tentado salvar.
Sua intenção era excelente, no entanto o resultado foi desastroso.
Não porque lhe faltasse bondade.
Mas porque lhe faltou compreender todas as consequências da própria ação.
Essa história nos lembra de algo muito importante.
Nem toda ajuda realmente ajuda.
Às vezes, proteger alguém é justamente impedir que a pessoa continue fazendo algo que a destruirá.
Às vezes, amar significa colocar limites.
Em alguns casos, a atitude mais compassiva é permitir que uma pessoa enfrente as consequências das próprias escolhas.
E, em outras situações, será necessário agir com firmeza para proteger quem está sendo prejudicado.
Perceba que nada disso contradiz o ensinamento de aceitar a derrota e oferecer a vitória.
Na verdade, ele apenas ganha profundidade.
Porque oferecer a vitória nunca significou entregar o controle da situação ao outro.
Significa abrir mão daquela necessidade quase compulsiva de vencer por orgulho.
Por essa razão, é perfeitamente possível agir com firmeza sem agir com raiva.
Dizer “não” sem odiar.
Denunciar uma injustiça sem desejar destruir quem a cometeu.
E interromper um abuso sem transformar o coração em um depósito de ressentimentos.
Esse talvez seja um dos maiores desafios da vida porque nossa tendência é acreditar que só existem dois caminhos.
Ou reagimos com agressividade.
Ou aceitamos tudo em silêncio.
Mas existe uma terceira via.
O caminho de quem age com compaixão e serenidade.
A ação pode ser exatamente a mesma.
O que muda é a motivação.
Imagine, por exemplo, uma situação de assédio moral no trabalho.
Permanecer calado pode permitir que outras pessoas continuem sendo humilhadas.
Nesse caso, agir talvez seja a atitude mais compassiva, não apenas consigo mesmo, mas também com todos aqueles que poderão sofrer a mesma violência.
A diferença está em como essa ação nasce.
Ela nasce do desejo de punir?
Ou nasce do desejo de interromper um sofrimento?
Pode parecer uma diferença pequena, mas, internamente, ela muda tudo.
Quando agimos movidos apenas pela raiva, quase sempre ampliamos o conflito.
No entanto, quando agimos movidos pela compaixão e orientados pela sabedoria, aumentam muito as chances de construirmos uma solução.
Esse princípio vale para praticamente todas as relações humanas.
Pais com filhos.
Casais.
Amigos.
Chefes.
Colegas de trabalho.
E até mesmo para desconhecidos.
Sempre podemos nos perguntar:
“O que realmente diminuirá o sofrimento nesta situação?”
Nem sempre a resposta será confortável.
Mas quase sempre será muito diferente da primeira reação que nosso impulso nos sugere.
Essa mudança de perspectiva também nos ajuda a lidar com outro tipo de sofrimento: aquele que já aconteceu e não pode mais ser mudado.
Há situações em que simplesmente não existe nada a fazer para alterar os fatos.
Um acidente.
Uma demissão.
O fim de um relacionamento.
Uma doença.
Ou a perda de alguém que amamos.
Nessas horas, passamos muito tempo tentando responder uma pergunta que talvez não tenha resposta.
“Por que isso aconteceu comigo?”
Talvez seja melhor se fazer uma pergunta mais útil.
“Agora que aconteceu, como escolherei responder a essa situação?”
Os acontecimentos pertencem ao passado, mas nossa resposta pertence ao presente e é ela que começará a construir o futuro.
Há uma expressão muito simples que diz que cada pessoa colhe aquilo que planta.
Independentemente da maneira como cada um interprete essa ideia, ela nos lembra de algo essencial: nossas escolhas nunca terminam no momento em que são feitas. Elas continuam produzindo efeitos, muitas vezes muito tempo depois.
O mesmo acontece com a forma como respondemos às dificuldades.
Quando reagimos apenas com ressentimento, plantamos novas razões para continuarmos sofrendo.
Por outro lado, quando respondemos com serenidade, compreensão, sabedoria e compaixão, começamos a plantar um tipo diferente de futuro.
E isso nos leva a uma última reflexão.
Talvez a vida nunca tenha prometido ser livre de sofrimento.
Desde o nascimento enfrentamos perdas, frustrações, doenças, despedidas, mudanças e incertezas. Até mesmo as pessoas que parecem ter conquistado tudo aquilo que o mundo valoriza continuam convivendo com ansiedade, insegurança, medo de perder o que conquistaram e necessidade constante de aprovação.
O sofrimento não é um “privilégio” de alguns.
É uma condição compartilhada por todos nós.
Quando compreendemos isso, deixamos de perguntar: “Por que justamente comigo?”
E começamos a perceber algo muito mais humano.
Todos estão travando batalhas invisíveis, inclusive aquela pessoa que hoje nos ofende.
Inclusive nós mesmos.
Essa percepção não elimina a dor, mas transforma profundamente a maneira como caminhamos através dela.
Chegamos, então, à pergunta que deu origem a toda esta reflexão.
Como é possível aceitar a derrota e oferecer a vitória?
Depois de tudo o que conversamos, talvez a frase já não pareça tão estranha.
Perceba que ela nunca nos convidou a sermos passivos.
Também nunca sugeriu que aceitássemos injustiças ou deixássemos que outras pessoas fizessem o que quisessem conosco.
Seu convite é muito mais profundo.
Ela nos convida a abandonar uma batalha que jamais poderemos vencer.
A batalha contra a realidade.
Quando alguém nos ofende, já fomos ofendidos.
Quando uma injustiça acontece, ela já aconteceu.
E quando somos criticados injustamente, aquelas palavras já foram ditas.
É por isso que lutar contra o fato só vai acrescentar uma segunda camada de sofrimento, como se carregássemos duas dores ao mesmo tempo.
A primeira, causada pelo acontecimento.
A segunda, criada pela nossa insistência em desejar que aquilo não tivesse acontecido.
Talvez a primeira seja inevitável.
No entanto, a segunda depende da forma como escolhemos responder.
Aceitar a derrota é abrir mão dessa segunda dor.
É reconhecer que, naquele momento, gastar energia tentando preservar o orgulho ou alimentar o ressentimento apenas prolongará nosso sofrimento.
E oferecer a vitória?
Talvez essa seja a parte mais difícil de compreender.
Porque oferecer a vitória não significa entregar um troféu ao outro.
Significa abandonar a necessidade de que alguém saia derrotado para que possamos nos sentir vencedores.
Quantas discussões familiares poderiam terminar de forma diferente se ninguém precisasse provar que estava certo?
Quantos casamentos seriam preservados se o objetivo deixasse de ser vencer uma discussão e passasse a ser compreender o sofrimento que existe por trás das palavras?
Quantas amizades sobreviveriam se aprendêssemos a ouvir antes de responder?
Nossa cultura costuma associar vitória à capacidade de dominar o outro.
Mas talvez exista uma forma muito mais elevada de vencer.
Aquela em que ninguém precisa perder.
Quando alguém nos agride e respondemos apenas com mais agressividade, o sofrimento muda apenas de endereço.
Ele continua existindo.
Continua crescendo.
E continua contaminando outras pessoas.
Mas quando conseguimos responder com serenidade, firmeza e compaixão, interrompemos esse ciclo.
Talvez a outra pessoa nem perceba.
Talvez ela nunca reconheça o que fez.
E pode ser, até mesmo, que continue acreditando que venceu.
Curiosamente, isso deixa de ser importante, porque a verdadeira transformação aconteceu dentro de nós.
É claro que ninguém consegue agir assim da noite para o dia.
Nem deveria esperar isso de si mesmo.
Esse tipo de resposta não nasce da força de vontade.
Ela nasce do treinamento.
Assim como fortalecemos os músculos repetindo um exercício inúmeras vezes, também fortalecemos nossa mente sempre que escolhemos responder de uma maneira um pouco melhor do que responderíamos ontem.
Alguns dias conseguiremos.
Em outros, falharemos.
Voltaremos a sentir raiva.
Responderemos impulsivamente.
Guardaremos ressentimento.
E tudo bem.
O importante é compreender que a mente está habituada a um determinado padrão de respostas e agora estamos trocando esse padrão por um completamente diferente.
Isso dá trabalho e leva tempo.
Treinar a mente é exatamente isso.
Recomeçar.
Outra vez.
E mais outra.
Pouco a pouco, aquilo que antes parecia impossível começa a acontecer de maneira espontânea.
A pessoa que antes nos tirava completamente do sério já não exerce o mesmo poder.
A crítica que nos acompanhava durante dias perde intensidade.
A necessidade de ter sempre razão começa a diminuir.
Não porque nos tornamos indiferentes.
Mas porque percebemos que quem mais sofre e mais perde é quem nos desfere os ataques.
Talvez seja justamente por isso que as pessoas mais difíceis da nossa vida sejam também aquelas que mais aceleram o nosso crescimento.
Não porque tenham vindo para nos ensinar alguma lição.
Nem porque tudo acontece por um motivo que precisamos descobrir.
Mas porque, diante delas, nossa mente revela quem ainda somos e quem podemos nos tornar.
Elas expõem nossas feridas, nossa impaciência, nosso orgulho e nossa necessidade de reconhecimento.
Ao mesmo tempo, as pessoas que nos atacam, nos oferecem uma oportunidade rara.
A oportunidade de responder de uma forma diferente.
De escolher a compreensão em vez da vingança.
A serenidade em vez da reação automática.
E a compaixão em vez do ressentimento.
Quem nos machuca nos mostra, todos os dias, o quanto nosso coração ainda pode crescer.
E talvez seja essa a maior inversão de perspectiva proposta por aquele antigo ensinamento.
A pessoa que hoje enxergamos como um obstáculo pode, na verdade, estar oferecendo uma das maiores oportunidades de transformação da nossa vida.
Não porque o sofrimento seja bom.
Nem porque devamos desejar situações difíceis.
Mas porque, quando elas inevitavelmente surgirem, podemos escolher que não sejam desperdiçadas.
No fim das contas, a verdadeira vitória nunca foi convencer alguém.
Nunca foi devolver uma ofensa.
E nunca foi sair de uma discussão com a última palavra.
A verdadeira vitória é atravessar uma situação difícil sem perder aquilo que temos de mais valioso.
Um coração capaz de amar.
Uma mente capaz de compreender.
E a sabedoria para agir de maneira que diminua o sofrimento, tanto o nosso quanto o das pessoas ao nosso redor.
Talvez, olhando de fora, pareça que perdemos.
Mas, se sairmos desse encontro mais compassivos, mais livres do orgulho e mais comprometidos em construir um mundo com menos sofrimento, foi justamente naquele momento que conquistamos a única vitória que realmente importa: paz interior.
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