Ansiedade e medo do futuro:
De quem é esse medo, afinal?
São três da manhã e Ricardo está olhando para o teto.
O celular está ao lado da cama, com a tela apagada, mas ele já olhou algumas vezes para ver se havia alguma mensagem nova.
Nada.
Não que estivesse esperando alguma mensagem específica.
Talvez estivesse apenas esperando alguma coisa que diminuísse a angústia que sentia naquele momento.
Ricardo tem 47 anos e trabalha há doze na mesma empresa. Entrou como gerente, foi promovido duas vezes e hoje ocupa um cargo executivo.
Naquela tarde, pouco antes de sair do escritório, recebeu uma mensagem do chefe:
“Ricardo, amanhã às 9h preciso conversar contigo. Passa na minha sala.”
Só isso.
Nenhuma explicação.
Ricardo respondeu:
“Claro.”
Guardou o celular e tentou continuar trabalhando.
Mas alguma coisa já havia começado a acontecer dentro da sua cabeça.
A empresa estava passando por uma reestruturação.
Nos últimos meses, alguns custos haviam sido cortados.
Duas semanas antes, um profissional de outra área tinha sido demitido.
Ricardo também se lembrou de uma reunião, três meses atrás, em que seu chefe questionou alguns resultados da equipe.
Na época, a conversa não pareceu tão importante.
Agora parecia.
Talvez aquilo já fosse um sinal.
Talvez a decisão estivesse sendo preparada há meses.
Possivelmente o chefe já soubesse.
Quiçá todo mundo também ja soubesse, menos ele.
No caminho para casa, Ricardo tentou pensar em outra coisa, mas não conseguiu.
No jantar, a esposa perguntou se estava tudo bem.
“Tudo.”
Ele não quis preocupá-la.
Afinal, não havia acontecido nada.
Ainda.
Às onze da noite, foi para a cama.
À meia-noite, continuava acordado.
Às duas da manhã, começou a fazer contas mentalmente.
A prestação do apartamento.
A escola dos filhos.
O plano de saúde.
O carro.
As despesas mensais.
Quanto dinheiro tinham guardado?
Por quanto tempo conseguiriam manter o mesmo padrão de vida?
E então surgiu outro pensamento:
“Quem vai contratar um executivo de 47 anos?”
Ricardo imaginou-se atualizando o LinkedIn.
Mandando mensagens para antigos contatos.
Conversando com recrutadores.
Participando de entrevistas.
Ouvindo que seu perfil era excelente, mas que a empresa havia decidido seguir com outro candidato.
Imaginou os meses passando.
A reserva financeira diminuindo.
A necessidade de cortar despesas.
Talvez vender o carro.
Talvez mudar os filhos para uma escola mais barata.
Ou, quem sabe, vender o apartamento.
Às três da manhã, Ricardo ainda estava olhando para o teto.
Seu coração estava acelerado.
Os músculos tensos.
O estômago apertado.
Ele estava exausto, mas não conseguia dormir.
Agora quero que você perceba uma coisa.
Naquele exato momento, Ricardo continuava empregado.
Seu salário continuava o mesmo.
O apartamento continuava sendo dele.
Os filhos continuavam na mesma escola.
Ninguém havia recusado seu currículo.
Nenhum recrutador havia dito que ele era velho demais.
Nenhuma conta estava atrasada por causa de uma demissão.
De fato, Ricardo nem sequer havia sido demitido.
O único fato concreto que existia era uma mensagem:
“Ricardo, amanhã às 9h preciso conversar com você.”
Em outras palavras, todo o resto aconteceu em outro lugar.
Na mente dele.
E é justamente aqui que vale fazer uma pergunta que quase ninguém faz quando está no meio de uma crise de ansiedade:
De quem é esse medo, afinal?
Parece uma pergunta estranha, mas você provavelmente responderia “Meu, é claro!”
Mas acompanha meu raciocínio, porque entender o que há por trás dessa pergunta pode revelar algo importante sobre boa parte da ansiedade que carregamos no dia a dia.
E a resposta talvez seja menos óbvia do que parece.
O personagem que você nunca escolheu interpretar
Repare em como você fala sobre si mesmo.
“Eu sou meio ansioso mesmo.”
“Sempre fui uma pessoa que se cobra demais.”
“Eu sou assim.”
“Não consigo relaxar antes de uma entrega importante.”
“Sempre penso demais.”
“Tenho dificuldade em lidar com críticas.”
Frases como essas parecem até descrições neutras.
Quase como se estivéssemos falando da nossa altura ou da cor dos nossos olhos.
Mas nenhuma delas é uma verdade absoluta.
Elas são histórias que fomos contando sobre nós mesmos e que, de tanto serem repetidas, começaram a parecer definições.
Nesse sentido, aqui pode nascer um problema.
Quando você acredita que “ser ansioso” faz parte de quem você é, cada novo episódio de ansiedade deixa de ser apenas uma experiência passageira e passa a funcionar como confirmação da sua própria identidade.
“Tá vendo?! Eu sabia. Eu sou assim.”
A mente gosta de coerência.
E quando ela cria uma imagem sobre quem somos, tende a interpretar nossas experiências a partir dessa imagem.
Se você acredita ser “a pessoa que trava diante de apresentações”, cada nova apresentação pode se transformar em uma oportunidade para confirmar essa história.
Se acredita ser alguém que “não sabe lidar com pressão”, cada situação difícil pode ser interpretada como mais uma prova.
No entanto, essa versão sólida e permanente de você — aquela que “sempre foi assim” e, portanto, “sempre será assim” — também é uma construção.
Não necessariamente uma mentira.
Mas também não uma verdade imutável.
É uma narrativa repetida tantas vezes que deixou de parecer narrativa.
Ricardo também tinha uma.
Ele era um executivo.
Um profissional bem-sucedido.
Homem responsável.
Pai capaz de proporcionar conforto à família.
Alguém que havia construído uma carreira sólida.
Alguém que, aos 47 anos, acreditava que deveria ter a vida profissional sob controle.
Nada disso é um problema.
Porém, o problema começa quando todas essas características deixam de ser circunstâncias da vida e passam a definir quem acreditamos ser.
Porque, quando a mente constrói esse personagem chamado “eu”, começa também a fazer algo curioso:
Passa a protegê-lo.
Por que um comentário qualquer consegue estragar o seu dia inteiro?
Imagine um grupo de WhatsApp com trinta pessoas.
Alguém escreve uma frase um pouco seca ou ambígua.
Talvez nem tenha pensado muito antes de enviar.
Vinte e oito pessoas leem e seguem a vida.
Mas duas passam o resto do dia pensando:
“Será que foi para mim?”
“Fiz alguma coisa?”
“Será que estão falando de mim?”
A mensagem foi a mesma.
O efeito, não.
Então vale perguntar:
Por que aquilo ganhou tanta importância para você?
Uma possível resposta é que existe uma espécie de holofote interno que nossa mente acende sempre que alguma coisa parece ameaçar a imagem que construímos de nós mesmos.
Não precisa ser uma grande ameaça.
Às vezes, basta uma crítica.
Uma discordância.
Um silêncio.
Uma mensagem não respondida.
Um chefe dizendo:
“Preciso falar contigo amanhã.”
Quando o holofote acende, um segundo movimento acontece quase imediatamente: surge a necessidade de proteger esse “eu”.
Pense na última vez em que alguém questionou uma decisão sua no trabalho.
Talvez, antes mesmo de compreender completamente o que a pessoa estava dizendo, uma parte de você já estivesse preparando uma resposta.
Explicando.
Justificando.
Defendendo.
Provando que você tinha razão.
Essa pressa em proteger algo antes mesmo de avaliar se aquilo realmente precisa ser protegido revela uma característica interessante da nossa mente.
Em primeiro lugar, ela constrói um personagem.
Em seguida, coloca esse personagem no centro da história.
Finalmente, passa a defendê-lo.
Foi exatamente o que aconteceu com Ricardo.
A mensagem do chefe não ameaçava apenas seu emprego.
Na cabeça dele, ameaçava o Ricardo.
O executivo... provedor... e profissional respeitado.
O homem de 47 anos que acreditava que, naquela altura da vida, já deveria ter conquistado estabilidade.
Se perdesse o emprego, o que aquilo diria sobre ele?
Será que havia fracassado?
Será que não era tão competente quanto imaginava?
O que os colegas pensariam?
O que os amigos falariam?
Será que a família diria algo?
Perceba como uma reunião que nem sequer havia acontecido começou a ameaçar muito mais do que uma posição profissional.
Ela ameaçava um personagem inteiro.
E quanto mais sólida é a imagem que construímos sobre quem somos, mais assustadora pode parecer qualquer coisa que ameace modificá-la.
As quatro camadas da ansiedade de Ricardo
Agora podemos olhar para aquela madrugada de outra maneira.
O que realmente estava acontecendo?
Podemos separar a experiência de Ricardo em quatro camadas.
Em primeiro lugar, está o fato.
O chefe pediu para conversar com ele às nove da manhã.
Só isso.
Em segundo lugar, está a interpretação.
“Provavelmente serei demitido.”
A terceira é a fabricação.
A partir da interpretação, a mente começa a construir uma história.
Demissão.
Desemprego.
Dificuldade para conseguir uma nova colocação.
Problemas financeiros.
Mudança no padrão de vida.
Venda do apartamento.
E assim por diante.
Por fim, existe uma quarta camada:
A identidade ameaçada.
“Se tudo isso acontecer, o que será de mim?”
Essa última camada talvez seja a mais profunda.
Porque Ricardo não estava apenas com medo de perder um salário.
Estava com medo de perder uma versão de si mesmo.
Ele era um executivo.
Um profissional bem-sucedido.
O provedor.
O homem que tinha a vida sob controle.
Em resumo, perceba como nos afastamos rapidamente do fato original.
Começamos com:
“Meu chefe quer conversar comigo.”
E terminamos em:
“Minha vida inteira pode desmoronar.”
Entre uma frase e outra existe um enorme espaço.
E esse espaço foi preenchido pela mente.
A reação é real. A leitura pode estar errada
É importante esclarecer uma coisa.
Dizer que a ansiedade está relacionada à forma como interpretamos uma situação não significa dizer que ela seja imaginária ou que o sofrimento não seja real.
Pense em uma alergia.
Quando o organismo de uma pessoa alérgica entra em contato com determinada substância, pode produzir uma reação física intensa.
O desconforto é verdadeiro.
O corpo está realmente reagindo.
Mas o que desencadeou aquela reação pode ser algo que, para a maioria das pessoas, não representa perigo algum.
O sistema de defesa identificou uma ameaça e entrou em ação.
Similarmente, com a ansiedade existe uma lógica semelhante.
Quando a mente percebe perigo, o corpo responde.
O coração pode acelerar.
A respiração pode ficar mais curta.
Os músculos podem tensionar.
O organismo se prepara para lidar com aquilo que acredita ser uma ameaça.
A reação física é real, mas a pergunta é outra:
A ameaça também é?
Naquela madrugada, o coração acelerado do Ricardo era real.
A tensão era real.
O desconforto no estômago era real.
A insônia era real.
Mas e a demissão?
Não.
O desemprego?
Também não.
A dificuldade financeira?
Não.
A venda do apartamento?
Muito menos.
Nada disso existia.
O corpo estava produzindo uma reação verdadeira diante de uma história que a mente havia construído.
E isso muda muita coisa porque se o problema estivesse no fato de possuirmos um sistema de defesa, não haveria muito o que fazer.
Po outro lado, se parte do problema está naquilo que dispara esse sistema, então existe algo que podemos aprender a observar.
Talvez você não precise eliminar sua capacidade de sentir medo.
Talvez precise compreender melhor o que está dizendo à sua mente que existe algo a temer.
Você está com medo de algo que ainda não aconteceu
Agora chegamos a uma pergunta ainda mais desconfortável:
Onde está, exatamente, aquilo que está deixando você ansioso neste momento?
Não responda de maneira abstrata.
Pense em algo concreto.
Uma conversa difícil.
Um resultado que está esperando.
Uma decisão que alguém precisa tomar.
Aquela reunião importante.
A possibilidade de demissão.
Uma dificuldade financeira.
Agora responda:
Isso já aconteceu?
Na maioria das vezes, não.
Ainda assim, seu corpo reage como se estivesse acontecendo agora.
Imagine um músico prestes a lançar um novo trabalho.
O lançamento ainda não aconteceu.
Ninguém ouviu a música.
Não existe nenhuma crítica publicada.
Apesar disso, ele pode passar dias imaginando comentários negativos, rejeição e fracasso.
Pode perder o sono por críticas que nunca foram escritas.
Sentir medo de opiniões que ninguém ainda teve.
Sofrer por uma rejeição que talvez nunca aconteça.
A mente pegou um cenário futuro e construiu uma versão dele.
Logo depois, começou a reagir à própria construção.
É exatamente o que podemos fazer antes de uma reunião, de uma conversa difícil ou de
qualquer situação sobre a qual não temos controle completo.
Criamos o filme.
Entramos dentro dele.
E esquecemos que fomos nós que ligamos o projetor.
Você nunca viverá o amanhã hoje
Existe algo curioso sobre o futuro.
Você nunca viverá o amanhã hoje.
Quando amanhã chegar, ele chegará como um novo “agora”.
E esse novo momento provavelmente trará algo que a imagem fabricada pela ansiedade
não possui:
Informações reais.
Circunstâncias reais.
Pessoas reais.
E a sua capacidade real de responder ao que estiver acontecendo.
A imagem fabricada pela ansiedade tem uma característica particularmente cruel:
Ela traz todas as ameaças do futuro, mas nenhum dos recursos que estarão disponíveis quando o futuro finalmente chegar.
Naquela madrugada, Ricardo conseguia imaginar perfeitamente sua demissão.
Por outro lado, não conseguia imaginar, com a mesma intensidade, as possibilidades que surgiriam depois dela.
Talvez recebesse uma boa indenização.
Talvez tivesse uma reserva financeira maior do que imaginava.
Quem sabe um antigo colega estivesse procurando alguém exatamente com seu perfil.
Talvez descobrisse que poderia reduzir algumas despesas sem destruir a vida da família.
Possivelmente encontrasse outro emprego.
Quiçá decidisse empreender.
Ou talvez nada disso acontecesse.
Em outras palavras, o ponto não é substituir uma fantasia pessimista por uma fantasia otimista.
É perceber que Ricardo simplesmente não tinha informações suficientes para saber.
A ansiedade, porém, havia preenchido todos os espaços vazios.
E quase sempre os preencheu com ameaças.
Talvez seja por isso que tantas vezes passamos dias sofrendo por alguma coisa e, quando finalmente chega o momento, pensamos:
“Era isso?”
Não significa, porém, que tudo sempre dará certo.
Nem que devemos abandonar o planejamento.
Sem dúvida, preparar-se para o futuro é necessário.
O problema começa quando confundimos duas coisas completamente diferentes:
Preparar-se para uma possibilidade e sofrer antecipadamente como se ela já fosse realidade.
Planejamento pergunta:
“Se isso acontecer, o que posso fazer?”
Ansiedade costuma afirmar:
“Isso vai acontecer e será terrível.”
Por um lado, uma coisa cria recursos.
Por outro lado, a outra cria sofrimento.
Às nove da manhã
Ricardo chegou ao escritório cansado.
Havia dormido pouco mais de duas horas.
Às 8h55, levantou-se da mesa.
Caminhou até a sala do chefe.
Bateu na porta.
Entrou.
O chefe pediu que se sentasse.
Ricardo tentou interpretar sua expressão.
Parecia sério.
Pronto.
Era aquilo.
O chefe começou a falar.
A empresa estava iniciando um projeto importante.
Precisavam de alguém experiente para assumir temporariamente a liderança.
O nome de Ricardo havia sido sugerido.
A conversa durou pouco mais de vinte minutos.
Quando saiu da sala, Ricardo continuava empregado.
Na verdade, havia acabado de receber uma nova responsabilidade.
Talvez você esteja pensando:
“Está vendo? Ele sofreu à toa.”
Sim.
No entanto, quero tomar cuidado com essa conclusão.
Porque ela pode nos levar a uma ideia perigosa e infantil:
A de que nunca devemos nos preocupar porque, no final, tudo dará certo.
A vida não funciona assim.
Às vezes, o chefe realmente chama para demitir.
Às vezes, o exame realmente traz um diagnóstico difícil.
De vez em quando, o relacionamento realmente termina.
Às vezes, o dinheiro realmente acaba.
Ocasionalmente, aquilo que mais tememos acontece.
Por isso, precisamos fazer uma pergunta ainda mais importante.
E se Ricardo realmente tivesse sido demitido?
Vamos mudar o final da história.
Ricardo entra na sala.
O chefe pede que se sente.
A empresa está passando por uma reestruturação e decidiu eliminar sua posição.
Depois de doze anos, Ricardo está demitido.
Agora, existe um problema real.
E ele terá de lidar com isso.
Talvez fique triste.
Pode ser que sinta medo.
Possivelmente precise conversar com a esposa.
Rever despesas.
Entender quanto dinheiro possui.
Negociar as condições da saída.
Atualizar o currículo.
Telefonar para antigos contatos.
Procurar oportunidades.
Talvez leve alguns meses.
Talvez seja difícil.
Ainda assim, perceba a diferença.
Agora Ricardo possui algo que não tinha às três da manhã:
A realidade.
Ele sabe que foi demitido.
Sabe quais são as condições da demissão e quanto dinheiro receberá.
Sabe quanto possui guardado.
Tem consciência que pode conversar com pessoas para pedir conselhos.
Pode tomar decisões, agir, pedir ajuda e criar um plano.
Enfim, o problema é real.
Porém, os recursos também são.
Às três da manhã, Ricardo tinha o pior dos dois mundos.
Sentia emocionalmente as consequências de uma demissão que não havia acontecido e, ao mesmo tempo, não possuía nenhuma das informações que teria caso ela realmente acontecesse.
Tinha a ameaça.
Mas não tinha os recursos.
Tinha o medo.
Mas não tinha os fatos.
Tinha o futuro.
Mas não tinha o presente em que poderia agir sobre ele.
Talvez essa seja uma das características mais perversas da ansiedade.
Ela nos faz sofrer antecipadamente por um futuro possível enquanto nos impede de perceber que, se esse futuro realmente chegar, nós também chegaremos lá.
E chegaremos com algo que hoje não temos:
As condições reais daquele momento.
Então, de quem é esse medo?
Voltamos à pergunta do início.
De quem é esse medo, afinal?
Talvez ele pertença, em grande parte, a um personagem que sua mente construiu e tenta proteger o tempo inteiro.
Um “eu” que precisa ser aprovado.
Respeitado.
Reconhecido.
Aceito.
Seguro.
No caso de Ricardo, um “eu” que precisava continuar sendo um executivo, bem-sucedido, provedor e profissionalmente estável.
Um personagem sobre o qual a mente mantém um enorme holofote e que precisa ser defendido até mesmo de ameaças que ainda não existem.
Claro que isso não significa que Ricardo não exista.
Nem que seus problemas não sejam importantes.
Significa apenas que talvez a imagem sólida que ele construiu sobre quem deveria ser tenha transformado uma mensagem de WhatsApp em uma ameaça à sua própria identidade.
De fato, talvez algo parecido aconteça conosco com muito mais frequência do que percebemos. Seja quando alguém nos critica.
Quando não respondem uma mensagem.
Ou quando discordam de nós.
Pode ser quando uma reunião é marcada.
Quando esperamos um resultado.
Ou quando alguma coisa ameaça sair diferente do que planejamos.
Talvez a ansiedade não esteja apenas perguntando:
“O que vai acontecer?”
Talvez, escondida por trás dessa pergunta, exista outra:
“O que acontecerá comigo se eu deixar de ser quem acredito que preciso ser?”
É uma pergunta mais profunda.
E talvez seja por isso que simplesmente dizer “não fique ansioso” nunca funcione.
A mente não precisa apenas ser tranquilizada.
Ela precisa ser compreendida.
Talvez você esteja lutando contra o inimigo errado
Quando a ansiedade aparece, nossa primeira reação costuma ser tentar eliminar a sensação.
Queremos que o coração desacelere.
Que os pensamentos parem.
O desconforto desapareça.
Ou que alguém nos garanta que tudo ficará bem.
Mas talvez exista uma pergunta anterior:
Qual foi a história que minha mente criou antes de tudo isso começar?
Qual é o fato e qual é a interpretação?
O que estou fabricando a partir dessa interpretação?
E, principalmente:
O que acredito que está sendo ameaçado?
Essas perguntas não fazem os problemas desaparecerem.
Ainda assim, podem começar a separar coisas que nossa mente costuma misturar.
Fato de interpretação.
Presente de futuro.
Planejamento de sofrimento.
Problema real de ameaça imaginada.
Dessa forma, talvez seja justamente nesse pequeno espaço entre uma coisa e outra que comece a surgir uma forma diferente de lidar com a ansiedade.
Você começa a perceber que nem todo pensamento sobre o futuro é uma previsão.
Nem toda possibilidade é uma realidade.
Nem toda crítica é uma ameaça.
Da mesmo forma, nem toda mudança te destrói.
E nem todo alarme significa que existe um incêndio.
Às vezes, é apenas a mente tentando proteger um personagem de uma história que ainda nem aconteceu.
Desative Sua Ansiedade
Foi para aprofundar essa reflexão e, principalmente, transformá-la em algo que possa ser aplicado na vida cotidiana que escrevi o livro “Desative Sua Ansiedade”.
Nele, explico de maneira simples o mecanismo que faz nossa mente transformar possibilidades futuras em ameaças presentes e como a necessidade de proteger a imagem que construímos sobre nós mesmos pode alimentar esse processo sem que percebamos.
No entanto, compreender é apenas uma parte do caminho.
Por isso, o livro também apresenta duas práticas.
Uma delas foi pensada para aqueles momentos em que a ansiedade já apareceu e você precisa interromper o ciclo e recuperar o controle.
A outra trabalha em uma camada mais profunda: a maneira como sua mente constrói os cenários que provocam ansiedade e como você se relaciona com aquilo que acredita estar ameaçado.
A proposta não é ensinar você a nunca mais sentir ansiedade.
O medo tem sua função e a preocupação também.
Por vezes, existem situações reais que exigem nossa atenção.
O objetivo é outro:
Aprender a reconhecer quando você está diante de um problema que precisa ser resolvido e quando está sofrendo por um futuro que sua mente começou a fabricar.
Por isso, talvez o primeiro passo para desativar a ansiedade não seja lutar contra aquilo que você está sentindo.
Talvez seja olhar para o medo com um pouco mais de atenção e perguntar:
Isso está realmente acontecendo?
Ou minha mente está me fazendo viver hoje uma história que talvez nunca aconteça amanhã?
E, finalmente:
De quem é esse medo, afinal?
Se essas perguntas continuaram ecoando na sua cabeça enquanto você lia este artigo, talvez valha a pena continuar essa conversa.
Conheça o livro “Desative Sua Ansiedade” e descubra uma maneira diferente de compreender e se relacionar com aquilo que acontece dentro da sua mente.
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