Você já recebeu uma crítica ou um comentário maldoso na internet que conseguiu estragar o seu dia?

Talvez alguém tenha escrito alguma coisa sobre você que não gostou, tenha feito uma crítica injusta ou tenha sido simplesmente grosseiro.

E, de repente, você se percebe pensando naquela pessoa durante horas.

Fica com raiva, imagina o que deveria ter respondido e volta para ler o comentário novamente.

Pensa em responder, escreve, apaga e escreve de novo.

E, quando percebe, uma pessoa que você provavelmente nem conhece está ocupando um espaço enorme dentro da sua cabeça.

Mas deixa eu te fazer uma pergunta: onde está exatamente o seu hater?

Você pode apontar para o comentário, pode mostrar o perfil da pessoa ou até saber o nome dela ,mas onde está aquele "hater" que você está enxergando na sua mente?

Será que ele existe exatamente da maneira como você acredita?

O hater existe?

Antes que você pense que eu estou ficando maluco, deixe-me explicar.

É claro que existe uma pessoa do outro lado.

Ela existe, escreveu alguma coisa, apertou o botão de publicar e você recebeu aquilo.

O que talvez não exista, porém, é o "hater" da maneira como normalmente imaginamos.

Porque uma coisa é a pessoa ter escrito um comentário agressivo.

Outra, é a imagem que a nossa mente constrói a partir daquele comentário.

A pessoa escreve:

"Você não sabe o que está falando."

E imediatamente nossa mente começa a trabalhar.

"Esse cara é um idiota."

"Ele quer me prejudicar."

"É uma pessoa ruim."

"Está contra mim."

"Acha que é melhor do que eu."

Percebe o que aconteceu?

A pessoa escreveu algumas palavras.

Mas a nossa mente construiu uma história inteira ao redor delas.

E, a partir dessa história, criou uma pessoa que agora chamamos de hater — palavra que vem do inglês hate, “odiar”, e que usamos para designar alguém que manifesta ódio ou hostilidade em relação a outra pessoa, principalmente na internet.

Isso é muito parecido com o que vimos quando falamos sobre como percebemos as coisas.

Uma mesma situação pode ser percebida de maneiras completamente diferentes por pessoas diferentes.

O comentário é real e as palavras foram escritas, mas a maneira como interpretamos essas palavras é outra coisa.

E isso nos leva a uma pergunta ainda mais interessante: por que aquilo que essa pessoa falou te incomoda tanto?

Por que aquilo que ele falou te incomoda tanto?

Imagine duas pessoas recebendo exatamente o mesmo comentário:

"Você não entende nada desse assunto."

A primeira lê e pensa:

"Pode ser. Talvez eu realmente não entenda tanto quanto imagino."

A segunda lê e pensa:

"Quem esse cara pensa que é para falar assim comigo?"

A frase foi exatamente a mesma, mas as experiências foram completamente diferentes.

Por quê?

Porque o sofrimento não está nas palavras. Ele está na mente que dá significado às palavras.

Em outras palavras, é a sua mente que interpreta de determinada maneira aquelas palavras.

Além disso,, existe algo ainda mais profundo acontecendo: a percepção exagerada que fazemos a respeito de nós mesmos.

Por exemplo, você pode pensar em algo como:

"Eu sou inteligente."

"Sou competente."

"Sei o que estou fazendo."

"As pessoas precisam respeitar minha opinião."

"Sou uma pessoa boa."

"Tenho conhecimento suficiente para falar sobre esse assunto."

Nada disso parece problemático.

O problema começa quando nos agarramos a essa imagem como se ela fosse quem realmente somos.

Então alguém aparece e diz alguma coisa que ameaça essa imagem.

E a nossa mente reage.

"Como assim eu não sei?"

"Como assim eu estou errado?"

"Que ele pensa que é para questionar minha capacidade?"

É aí que o orgulho aparece.

E, muitas vezes, junto com ele vem a raiva.

Perceba a sequência: alguém fala alguma coisa → nossa mente interpreta → essa interpretação ameaça a imagem que temos de nós mesmos → surge uma emoção negativa → sofremos.

O comentário foi apenas a condição que desencadeou tudo isso, mas o sofrimento aconteceu dentro da nossa própria mente.

E isso muda completamente a maneira como devemos olhar para o problema.

Mas e se o hater estiver realmente errado?

Aqui existe um ponto importante...

Porque talvez você esteja pensando:

"Tudo bem, Andres. Entendi que minha mente participa da experiência. Mas e se o cara estiver realmente sendo injusto? E se ele estiver falando uma mentira ou sendo grosseiro de propósito?"

De fato, ele pode realmente estar errado.

E não precisamos fingir que todo mundo tem razão.

Não precisamos aceitar qualquer comportamento ou permitir que alguém nos desrespeite.

Podemos discordar, responder e estabelecer limites.

E podemos bloquear a pessoa e denunciar um comentário.

Dependendo da situação, podemos até tomar medidas mais sérias.

Nada disso exige que criemos ódio dentro da nossa própria mente.

E essa é uma distinção muito importante.

Uma coisa é reconhecer que determinada atitude foi inadequada. Outra, é transformar essa atitude em raiva, ressentimento e desejo de vingança.

Só para ilustrar, imagine que alguém bata no seu carro.

Você pode constatar:

"Essa pessoa bateu no meu carro."

E você precisará resolver o problema.

Talvez conversar com ela, acionar o seguro ou, até mesmo, chamar a polícia.

Mas uma coisa é resolver o problema e outra é passar os próximos três meses alimentando ódio daquela pessoa.

O fato precisa ser encarado.

O sofrimento adicional não precisa ser criado.

E isso vale também para o hater.

Então, o que eu faço quando alguém me ataca?

Talvez o primeiro passo seja muito mais simples do que parece: pare de olhar para o hater e comece a olhar para a sua própria mente.

Alguém escreveu alguma coisa desagradável.

Antes de pensar em responder, experimente observar:

"O que está acontecendo dentro de mim?"

"Estou com raiva?"

"Estou me sentindo humilhado?"

"Quero provar que estou certo?"

"Quero que essa pessoa reconheça meu valor?"

"Estou sentindo necessidade de vencer essa discussão?"

Isso muda completamente o foco.

Porque, até aquele momento, você estava olhando para o outro e pensando:

"Que pessoa ridícula."

Agora você começa a olhar para dentro e pensar:

"O que essa situação está revelando sobre a minha própria mente?"

E aqui existe uma oportunidade enorme.

Antes de responder, faça uma pergunta muito simples:

Existe alguma verdade nessa crítica?

Se existe, aproveite.

Talvez aquela pessoa tenha apontado uma coisa que você realmente precisa melhorar.

Nesse caso, você pode agradecer mentalmente pela informação e seguir em frente.

Agora, se não existe nenhuma verdade?

Se a pessoa simplesmente está tentando provocar você?

Então vem outra pergunta: por que eu deveria sofrer por causa da opinião dela?

Alguém pode escrever:

"Você é um idiota."

Isso é um fato?

Não.

É uma opinião.

E uma opinião de alguém que talvez nem conheça você.

Se não existe nenhuma informação útil naquele comentário, por que transformar aquelas palavras em sofrimento dentro da sua própria mente?

Talvez o hater seja seu professor

Essa é uma mudança de perspectiva que pode transformar completamente a maneira como lidamos com as pessoas difíceis.

Uma pessoa que nos elogia nem sempre revela as nossas fraquezas.

Mas alguém que nos provoca pode revelar nossas delusões imediatamente.

Aquela pessoa escreveu uma frase e, em segundos, revelou meu orgulho, minha necessidade de reconhecimento ou de aprovação.

Ou minha raiva, dificuldade de aceitar críticas e de achar que estou sempre certo.

Veja que interessante.

Talvez o hater tenha passado alguns segundos escrevendo aquele comentário.

Mas você pode passar muito mais tempo aprendendo com aquilo.

Não porque o comentário seja necessariamente bom ou porque a pessoa esteja certa, mas porque a situação revelou algo que estava dentro da sua própria mente.

Nesse sentido, podemos olhar para uma situação desagradável e pensar:

"Obrigado por me mostrar onde minha mente ainda perde a paz."

Não precisamos escrever isso para o hater.

Aliás, talvez seja melhor não escrever absolutamente nada.

Mas podemos pensar isso internamente.

Porque, se uma pessoa consegue tirar completamente a nossa paz com algumas palavras, talvez exista alguma coisa dentro de nós que ainda precise ser compreendida.

Mas eu preciso responder?

Essa é outra pergunta interessante.

Porque às vezes nem estamos tentando esclarecer alguma coisa.

Estamos tentando vencer.

A pessoa escreve.

Nós respondemos.

Ela responde novamente.

Nós respondemos.

Ela faz outra provocação.

E lá estamos nós, 40 minutos depois, discutindo com alguém que nunca vimos na vida.

Mas o que exatamente estamos tentando ganhar?

Queremos que ela admita que estamos certos?

Que reconheça nossa inteligência?

Queremos recuperar a nossa imagem ou provar que somos melhores?

Se for isso, talvez o problema não esteja mais no comentário.

Está no nosso apego à necessidade de estar certos.

E aí voltamos novamente ao orgulho.

Às vezes, a melhor resposta para uma provocação é simplesmente não alimentar a provocação. Ou, como eu gosto de dizer... a melhor resposta pode ser nenhuma resposta.

Não porque você seja fraco.

Mas porque você percebeu que não precisa entregar o controle da sua mente para uma pessoa que decidiu escrever algumas palavras na internet.

O hater está em todo lugar

Agora eu quero ampliar um pouco essa reflexão.

Porque talvez você esteja pensando:

"Tudo isso faz sentido para quem vive na internet. Mas eu nem tenho tantos haters."

Tudo bem.

Mas você tem um chefe? Um vizinho? Um marido ou uma esposa?

Tem filhos ou colegas de trabalho?

Já dirigiu no trânsito?

Então provavelmente você já encontrou muitos "haters".

Talvez eles tenham outros nomes.

É o chefe que você considera insuportável.

O colega que você acha arrogante.

O vizinho que coloca música alta.

A pessoa que corta você no trânsito.

O familiar que sempre faz aquele comentário que você não suporta.

Percebe?

O mecanismo é o mesmo.

Alguém faz alguma coisa que não corresponde às nossas expectativas.

Nossa mente interpreta.

Surge um pensamento.

O pensamento produz um sentimento.

E nós sofremos.

Talvez o problema nunca tenha sido exclusivamente aquela pessoa.

Talvez o problema esteja na nossa relação com aquilo que ela fez.

E isso vale para praticamente todas as áreas da vida.

O verdadeiro inimigo não está do lado de fora

Quando alguém nos trata bem, é relativamente fácil manter uma mente tranquila.

O verdadeiro desafio aparece quando alguém faz exatamente aquilo que não queremos.

É aí que descobrimos como nossa mente funciona.

É aí que percebemos o quanto ainda dependemos das condições externas para estar em paz.

Se todo mundo me trata bem, eu estou bem. Se todo mundo concorda comigo, eu estou bem.

E se ninguém me critica, eu também me sinto bem.

Mas basta alguém dizer alguma coisa desagradável e toda a nossa paz desaparece.

Nesse caso, quem está controlando a nossa mente?

Nós ou os outros?

Essa talvez seja a pergunta mais importante deste artigo.

Porque não podemos controlar o que as pessoas pensam.

Não podemos controlar o que elas dizem.

Não podemos controlar a maneira como elas nos tratam.

E certamente não podemos impedir que alguém escreva uma bobagem sobre nós na internet.

Mas podemos aprender a controlar a maneira como nossa mente reage a tudo isso.

E isso não acontece de uma hora para outra.

É necessário treino, observar a própria mente e reconhecer quando o orgulho aparece.

Quando surge a necessidade de aprovação, quando sentimos vontade de revidar e quando queremos desesperadamente provar que estamos certos.

E, pouco a pouco, aprender a não seguir automaticamente esses pensamentos.

Haters e a verdadeira liberdade

Talvez você tenha começado este texto pensando:

"Como eu faço para lidar melhor com os meus haters?"

Mas talvez essa não seja exatamente a pergunta certa.

Talvez a pergunta seja:

"Como eu faço para não entregar aos outros o controle da minha mente?"

Porque o objetivo não é construir um mundo onde ninguém nos critique.

Isso seria impossível.

Sempre haverá alguém que não gosta do que fazemos, que discorda de nosso ponto de vista ou que interpreta nossas ações de maneira diferente da nossa.

E tudo bem.

A liberdade não está em conseguir controlar o que as outras pessoas fazem.

Está em não permitir que cada acontecimento externo determine automaticamente aquilo que acontece dentro de nós.

Quando alguém fizer uma crítica, podemos ouvir.

Podemos verificar se existe alguma verdade, aprender e responder, se for necessário.

Ou simplesmente seguir em frente.

Mas sem precisar transformar aquilo em ódio.

Sem precisar alimentar ressentimento.

Sem precisar passar horas tentando provar nosso valor para alguém.

Porque, no final das contas, talvez o hater não seja a pessoa que mais precisa mudar nessa história.

Talvez seja a nossa própria mente.

E quando começamos a perceber isso, acontece uma mudança profunda.

Deixamos de perguntar:

"Como faço para acabar com os meus haters?"

E começamos a perguntar:

"O que essa situação pode me ensinar sobre a minha própria mente?"

É nesse momento que aquilo que parecia ser apenas um problema começa a se transformar em uma oportunidade.

Uma oportunidade de conhecer melhor a própria mente.

De reduzir o orgulho, abandonar a necessidade de aprovação e desenvolver mais paciência.

E, principalmente, de descobrir que a nossa paz interior não precisa estar nas mãos de ninguém.

Nem mesmo nas mãos de um hater.

Você pode ver o vídeo deste artigo aqui.


Andres Postigo
Andres Postigo

Andres Postigo é autor, palestrante e estrategista, dedicado a explorar a relação entre espiritualidade, propósito, desenvolvimento humano, liderança e realização profissional. Com décadas de experiência no mundo dos negócios e um profundo interesse pelo desenvolvimento da mente, traduz ensinamentos de sabedoria espiritual para uma linguagem prática e aplicável à vida cotidiana, ajudando pessoas a encontrar mais sentido, equilíbrio, clareza e paz interior em meio aos desafios da vida moderna.

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