Você já parou para pensar de onde vem a felicidade e o sofrimento que você sente?

Pode parecer uma pergunta estranha, mas ela é muito mais importante do que parece.

Grande parte do nosso sofrimento nasce de uma falta de clareza sobre aquilo que realmente está na origem dele.

Em outras palavras, nós sofremos porque não compreendemos como as coisas realmente existem.

Aí você pode estar pensando:

"Como assim? Como eu não sei como as coisas existem?"

Afinal, nós olhamos para uma cadeira e vemos uma cadeira.

Olhamos para um carro e vemos um carro.

Nosso vizinho antipático está ali, nosso chefe chato está lá na empresa, nossa família está aqui ao meu lado.

Tudo parece bastante concreto.

De fato, nós acreditamos que as coisas que vemos e sentimos existem exatamente da maneira como as percebemos.

A cadeira está ali. Eu estou aqui. Portanto, a cadeira existe independentemente de mim.

O carro está ali. Eu estou aqui. Portanto, o carro existe independentemente de mim.

E fazemos a mesma coisa com as pessoas e com as situações da nossa vida.

"Meu vizinho é chato."

"Meu chefe é insuportável."

"O mundo está de cabeça para baixo, mas eu estou aqui, no meu canto, fazendo tudo certinho."

Parece óbvio, né?

Mas será que as coisas são realmente assim?

As coisas dependem da maneira como as percebemos

Nós normalmente percebemos as coisas como se elas existissem independentemente de nós, da nossa mente e da nossa maneira de percebê-las.

Mas não é bem assim.

Tudo aquilo que experimentamos depende da nossa mente.

Pense em uma cadeira.

Para nós, seres humanos, aquela cadeira é um objeto feito para sentar.

Mas para um cachorro, ela pode ser um lugar para fazer xixi ou um objeto para morder.

Ou pode ser, simplesmente, alguma coisa que está no caminho dele.

O cachorro não olha para aquela cadeira e pensa:

"Que bela cadeira. Foi muito bem projetada para que uma pessoa possa sentar confortavelmente."

Veja que interessante... a cadeira é a mesma, mas a experiência do observador é completamente diferente.

E isso acontece o tempo inteiro com tudo a nosso redor, não apenas objetos materiais, mas também com objetos imateriais.

Pense em uma pessoa que você considera extremamente chata.

Talvez você não suporte conversar com ela.

Mas talvez os filhos dela a considerem uma pessoa maravilhosa.

Talvez o marido ou a esposa dela a veja como alguém carinhoso.

Talvez um colega de trabalho tenha uma opinião completamente diferente da sua.

Então, onde está exatamente aquela pessoa "chata"?

Ela está lá, é claro.

Mas a característica de ser chata para você não está simplesmente dentro daquela pessoa como se fosse uma propriedade independente.

A "chatura" da pessoa depende da maneira como a sua mente se relaciona com aquela pessoa.

O mesmo acontece com a comida.

Você pode adorar um churrasco mal passado.

Sua mente olha para aquele pedaço de carne e pensa:

"Que delícia!"

No entanto, um vegetariano pode olhar exatamente para o mesmo prato e sentir repulsa.

O objeto é o mesmo.

Mas uma mente experimenta prazer e a outra experimenta aversão.

Quem gosta de churrasco pensa que a delícia está no churrasco em si.

Mas, se a delícia estivesse realmente naquele pedaço de carne, ela deveria produzir prazer em qualquer pessoa.

Só que não produz.

O prazer está na mente que percebe aquele alimento como agradável.

Essa diferença parece pequena, mas ela é extremamente importante.

Porque esses exemplos simples nos ajudam a perceber uma coisa muito mais profunda: aquilo que experimentamos não existe da maneira independente como normalmente imaginamos.

E isso começa a ficar realmente interessante quando levamos essa lógica para as nossas emoções e para os acontecimentos da nossa vida.

E o que isso tem a ver com o seu sofrimento?

Talvez você esteja pensando:

"Mas, Andres, tudo bem... a cadeira depende da minha percepção, o cachorro percebe de outra maneira, o vegetariano não gosta do churrasco... Mas eu estou preocupado é com o boleto que tenho que pagar amanhã. O que essa história de perceber as coisas tem a ver com a minha vida?"

Tem tudo a ver.

Porque entender como nós percebemos as coisas pode nos ajudar a compreender a origem do nosso sofrimento.

E isso não se aplica apenas a cadeiras, carros e churrascos.

Aplica-se, principalmente, às nossas relações com as outras pessoas e à nossa relação com os próprios pensamentos.

Para entender isso melhor, vamos pensar em algo que todos nós conhecemos: o ato de dormir e sonhar.

O que acontece quando sonhamos?

Quando estamos acordados, existe uma determinada maneira pela qual nossa mente se relaciona com aquilo que está acontecendo ao nosso redor.

É através dessa mente de vigília que interagimos com o mundo, tomamos decisões e avaliamos o que podemos ou não podemos fazer de acordo com nossos valores, nossa moral, nossa ética e as regras da sociedade.

Mas, quando dormimos, essa experiência muda completamente.

É como se essa mente de vigília se recolhesse e uma outra atividade mental, mais sutil, entrasse em ação: a mente que produz os sonhos.

E, quando você dorme, tudo aquilo que estava presente na sua experiência de vigília desaparece.

Sua casa desaparece.

Os problemas do dia a dia desaparecem.

Seus parentes desaparecem.

Seu trabalho desaparece.

O boleto que você precisava pagar desaparece.

E onde tudo isso foi parar?

Tudo continua existindo como experiência potencial da sua mente de vigília, que voltará a se manifestar quando você acordar.

Enquanto isso, você começa a sonhar.

Às vezes tem sonhos maravilhosos e, em outras situações, sonhos horríveis.

E existe algo muito interessante nesse processo de sonhar: independentemente de o sonho ser bom ou ruim, enquanto estamos sonhando, tudo parece absolutamente real.

Você não está deitado na sua cama pensando:

"Ah, estou sonhando. Então não preciso me preocupar."

Na maioria das vezes, não é isso que acontece.

Ao contrário, você está completamente envolvido pela experiência.

Você cai da escada e se machuca.

Está dançando em uma festa.

Sofre uma perseguição.

É roubado por alguém.

Sofre, sente medo, grita e chora.

Tudo parece acontecer de verdade.

Até que, em determinado momento, você começa a acordar e aí, a mente do sonho se recolhe e a mente de vigília volta a se manifestar.

E aí você pensa:

"Nossa! Sonhei que fui roubado."

E imediatamente vem o alívio:

"Ah, mas era só um sonho."

Você não vai procurar o ladrão.

Não vai procurar aquela pessoa que você conheceu, nem vai sair correndo para resolver o problema que aconteceu durante o sonho, porque você sabe que tudo aquilo foi produzido pela sua mente.

Mas existe uma coisa curiosa.

Enquanto você sonhava, todas aquelas experiências eram reais para você. Tão real como se você estivesse vivendo-as de verdade.

Você sofreu de verdade.

Sentiu medo de verdade.

E seu coração acelerou de verdade.

A diferença é que, depois que acordou, você percebeu que aquela experiência não existia da maneira como você acreditava enquanto estava sonhando.

E aí vem uma pergunta interessante:

E se estivermos fazendo algo parecido agora?

Será que estamos realmente acordados?

Eu sei que esse tipo de pergunta pode dar um nó na cabeça.

Então vamos voltar para algo mais simples.

Nós vimos que o objeto chamado "cadeira" só é cadeira porque existe uma mente humana que atribui esse significado a ela.

Para um cachorro, aquela mesma coisa pode ter outra função.

Em outras palavras, o conceito de cadeira está na nossa mente.

E isso nos ajuda a entender algo muito mais profundo: a maneira como percebemos as coisas influencia diretamente os estados mentais que experimentamos.

Vamos pensar em uma situação bem cotidiana.

Imagine que você está andando pela rua e alguém olha para você e começa a te xingar.

O que acontece nessa hora?

A maioria das pessoas vai se sentir ofendida.

Algumas podem ficar muito irritadas.

E outras podem até partir para uma agressão física.

Agora imagine uma segunda situação.

Você está andando pela mesma rua e vê uma pessoa que você nunca viu na vida xingando outra pessoa que também é desconhecida para ti.

Você sentiria as mesmas emoções?

Provavelmente não.

Talvez achasse graça, talvez nem ligasse ou simplesmente continuasse caminhando.

Então por que uma situação produz uma reação emocional tão intensa em uma pessoa e praticamente nenhuma reação em outra?

Porque o sentimento de agressão não está simplesmente no conjunto de palavras que foi pronunciado.

Existe uma mente que interpreta aquelas palavras.

O xingamento, por si só, é apenas um conjunto de sons e palavras.

É a nossa mente que atribui significado àquilo.

É a nossa mente que pensa:

"Ele está me desrespeitando."

"Ele não poderia falar comigo dessa maneira."

"Quem essa pessoa pensa que é para falar assim comigo?"

E, a partir dessa interpretação, surgem raiva, indignação, ressentimento, orgulho e desejo de revidar.

Percebe a diferença?

O fato aconteceu.

Mas o estado mental que surgiu em resposta a ele depende da maneira como a nossa mente interpretou o fato.

E é exatamente aí que começa a nossa grande descoberta.

A origem do sofrimento

Se você refletir profundamente sobre isso, começará a perceber que muitas vezes a origem do nosso sofrimento nunca esteve exatamente fora de nós.

Ela estava na maneira como nossa mente se relacionou com aquilo que aconteceu.

Isso não significa que os acontecimentos externos não existam.

Uma pessoa pode bater no seu carro.

Você pode perder o emprego.

Uma conta pode vencer amanhã e você não ter dinheiro para pagar.

E alguém pode dizer alguma coisa realmente desagradável para você.

Esses fatos são reais e precisam ser resolvidos.

O que muda é outra coisa: o estado mental que surge em resposta a esses acontecimentos.

Imagine que você acabou de ser demitido.

A demissão aconteceu.

É um fato.

Você terá que resolver a situação.

Talvez precise procurar outro emprego, empreender ou reduzir seus gastos.

Existem problemas concretos que precisam ser enfrentados.

Mas o medo, a ansiedade e o desespero que podem surgir a partir desse acontecimento são experiências da sua mente.

Outra pessoa pode receber exatamente a mesma notícia e reagir de maneira completamente diferente.

Pode até ficar feliz!

"Finalmente vou poder fazer aquilo que sempre quis."

Ela pode ter que enfrentar problemas financeiros e pode não saber ainda como pagará as contas.

Mas a experiência mental é outra.

Isso mostra uma coisa muito importante: viver em felicidade não significa passar o dia como um bobo alegre, sorrindo para tudo que acontece.

Significa poder atravessar as situações difíceis da vida mantendo algum nível de paz interior, sem permitir que pensamentos negativos tomem completamente conta da nossa mente.

Você pode ter sido demitido e, ainda assim, permanecer em paz.

Pode precisar resolver um problema financeiro e, ainda assim, não passar a noite inteira em desespero.

Alguém pode ter batido no seu carro e você precisará resolver o problema, mas não precisa passar os próximos três meses alimentando raiva daquela pessoa.

O fato aconteceu.

Mas a maneira como você se relaciona mentalmente com o fato pode ser transformada.

A grande virada de chave

Quando você começa a observar suas próprias reações, começa também a perceber uma coisa muito interessante: quando um fato acontece, imediatamente surge uma interpretação.

Depois surge um pensamento. Esse pensamento produz um sentimento.

E esse sentimento influencia a maneira como você reage.

Normalmente, nós acreditamos que a sequência é diferente.

Pensamos:

"Isso aconteceu comigo, portanto eu fiquei assim."

"Ele me enganou, por isso fiquei com raiva."

"Fui demitido, por isso estou ansioso."

"Estou furioso porque ele bateu no meu carro."

Mas será que o acontecimento, sozinho, tem esse poder?

Essa é a grande virada de chave.

O que acontece fora de nós não determina automaticamente aquilo que acontece dentro de nós.

Existe uma mente entre o acontecimento e a nossa reação.

E, quando começamos a perceber isso, criamos algo extremamente valioso: um espaço entre o fato e a nossa reação.

Esse espaço pode mudar a sua vida

Imagine que alguém diga alguma coisa ofensiva para você.

Hoje talvez a reação seja automática.

A pessoa fala.

Você interpreta.

Fica com raiva.

Responde.

E depois se arrepende.

Mas, à medida que você começa a compreender como sua mente funciona, alguma coisa pode mudar.

A pessoa fala e você percebe o que está acontecendo dentro da sua mente.

E, antes de reagir, existe um pequeno espaço.

Um momento em que você consegue perceber:

"Estou ficando com raiva."

E talvez, nesse momento, você consiga lembrar:

"O que essa pessoa disse é um fato. A maneira como estou interpretando isso é outra coisa."

Isso não significa aceitar tudo passivamente e não significa deixar que as pessoas façam qualquer coisa com você.

Significa apenas não entregar automaticamente o controle do seu estado mental para aquilo que acontece fora de você.

E essa é uma mudança enorme.

Nada existe por si só

É aqui que chegamos ao ponto central de toda essa reflexão.

Nada, absolutamente nada, existe de maneira independente como normalmente imaginamos.

Tudo aquilo que experimentamos depende de causas e condições.

E depende da maneira como nossa mente experiencia aquilo.

É por isso que uma mesma situação pode ser agradável para uma pessoa e desagradável para outra.

Uma pessoa pode ser maravilhosa para alguém e insuportável para outra.

Uma comida pode ser deliciosa para você e repulsiva para outra pessoa.

E uma situação pode ser uma tragédia para alguém e uma oportunidade para outra pessoa.

E isso acontece porque aquilo que experimentamos não está "lá fora", pronto, com uma "etiqueta" fixa de felicidade ou sofrimento.

Foi a nossa mente que olhou para a experiência e a classificou como agradável ou desagradável.

Essa tomada de consciência é algo maravilhoso, porque, se uma experiência desagradável depende de uma determinada maneira da nossa mente perceber aquilo, então existe a possibilidade de transformar essa maneira de perceber.

E se a nossa mente mudou a maneira de interpretar uma situação, a nossa experiência também muda.

E o que isso significa na prática?

É muito fácil perceber essa tomada de consciência quando pensamos em situações extremas.

Por exemplo, uma pessoa que sofre de uma condição psiquiátrica grave pode perceber coisas que outras pessoas não percebem e vivenciar essas experiências como absolutamente reais.

Para ela, aquilo não é uma fantasia.

É uma experiência concreta.

E é justamente por isso que o sofrimento pode ser tão intenso.

O curioso é que, de certa maneira, todos nós fazemos algo semelhante.

Nós acreditamos que o nosso vizinho é chato por si só.

Que nosso chefe é insuportável por natureza.

Que determinada pessoa é arrogante.

Ou que determinada situação é insuportável.

Mas onde está, de maneira concreta, aquela pessoa intrinsecamente chata ou insuportável?

Quando procuramos com cuidado, percebemos que essa característica de "pessoa chata", existe apenas na nossa mente.

Pensar assim muda completamente a nossa perspectiva, a maneira como nos relacionamos com as situações e, em última instância, a relação com nossos estados emocionais.

O verdadeiro exercício

É claro que aceitar isso logicamente é uma coisa, mas colocar em prática é outra completamente diferente.

Esse é justamente o nosso desafio.

Porque, se não aprendermos a fazer essa distinção, podemos passar a vida inteira reagindo emocionalmente a tudo aquilo que acontece fora de nós.

Alguém fala alguma coisa.

E nós sofremos.

Alguém faz alguma coisa.

E sofremos.

Alguma coisa não acontece como queríamos.

E sofremos novamente, acreditando que o mundo é responsável por nosso estado mental.

Mas, à medida que refletimos sobre como nossa mente se relaciona com o que ela percebe, começamos a criar um espaço entre o acontecimento e a reação.

E nesse espaço existe uma oportunidade.

A oportunidade de perceber que aquilo que estamos experimentando não é simplesmente uma realidade externa que se impôs sobre nós.

É uma experiência construída pela nossa mente a partir da maneira como ela percebe, interpreta e se relaciona com aquilo que aconteceu.

Em outras palavras, o fato ocorrido é apenas o fato em si, mas as emoções surgidas ao analisar o fato são uma criação da nossa mente.

Ter essa consciência significa perceber que as coisas não existem da maneira como parecem existir para nós.

Elas existem de acordo com a maneira equivocada que a nossa mente interpreta.

A cadeira existe, mas não como uma cadeira independente da mente que a percebe.

O churrasco existe, mas não como algo intrinsecamente delicioso ou repulsivo.

O xingamento aconteceu, mas não carrega dentro dele o poder de produzir raiva.

A demissão aconteceu, mas não carrega dentro dela o poder de produzir desespero.

O vizinho existe, mas não existe como "uma pessoa chata" independente da maneira como nossa mente o percebe.

Essa compreensão transforma profundamente a nossa relação com a vida.

Porque, quando começamos a perceber que a nossa experiência depende da nossa mente, começamos também a perceber que podemos trabalhar essa mente.

E, pouco a pouco, aquilo que antes parecia impossível de suportar começa a ser experimentado de outra maneira.

Não porque a realidade externa necessariamente mudou.

Mas porque a nossa interpretação da realidade mudou.

E talvez seja justamente essa a verdadeira liberdade: não viver em um mundo onde nada de ruim acontece, mas desenvolver uma mente que não precisa transformar tudo aquilo que acontece em sofrimento.

Você pode ver este vídeo aqui.


Andres Postigo
Andres Postigo

Andres Postigo é autor, palestrante e estrategista, dedicado a explorar a relação entre espiritualidade, propósito, desenvolvimento humano, liderança e realização profissional. Com décadas de experiência no mundo dos negócios e um profundo interesse pelo desenvolvimento da mente, traduz ensinamentos de sabedoria espiritual para uma linguagem prática e aplicável à vida cotidiana, ajudando pessoas a encontrar mais sentido, equilíbrio, clareza e paz interior em meio aos desafios da vida moderna.

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