"Não é a morte que torna a vida triste. É esquecer-se da morte que torna a vida superficial."

Hoje quero conversar com você sobre um tema que costuma provocar desconforto e que, justamente por isso, quase sempre evitamos: a morte.

Pode parecer estranho começar uma conversa sobre qualidade de vida falando sobre pensar na morte. Afinal, somos ensinados a buscar felicidade, sucesso, realizações e bem-estar.

Enfim, tudo que é visto como oposto à morte.

Entretanto, talvez uma das reflexões mais importantes que possamos fazer para viver melhor seja justamente aquela que quase nunca fazemos.

Porque o problema não é que vamos morrer um dia.

O problema é viver como se esse dia nunca fosse chegar.

Todos nós sabemos que vamos morrer. Seja qual for sua religião, sua filosofia de vida ou mesmo que você não acredite em absolutamente nada, a morte é um fato que ninguém consegue evitar.

No entanto, existe uma enorme diferença entre saber disso intelectualmente e viver considerando essa possibilidade.

Na prática, sabemos que vamos morrer, mas vivemos como se fôssemos imortais.

Fazemos planos para daqui a cinco, dez ou vinte anos.

Pensamos na próxima promoção, na próxima viagem, no próximo carro e na próxima conquista e organizamos nossa vida supondo que haverá tempo suficiente para realizar tudo aquilo que desejamos.

Só que ninguém sabe quanto tempo realmente tem.

Pode ser que você morra daqui a cinquenta anos.

Pode ser que morra amanhã.

Ou pode ser hoje mesmo.

Falar assim assusta, não é verdade?

Mas existe algo que impede que você morra hoje?

A resposta é um sonoro 'Não'.

É justamente essa ilusão de permanência, de achar que não vamos morrer que, sem percebermos, molda praticamente todas as nossas escolhas.

E como acreditamos que ainda temos muito tempo pela frente, colocamos nossa energia quase que exclusivamente nas conquistas externas.

Queremos crescer profissionalmente, ganhar mais dinheiro, conquistar reconhecimento, construir patrimônio, viajar mais, aumentar nossa influência e sermos admirados pelos outros.

Essas conquistas são saudáveis e não há nada de errado em desejá-las.

O problema começa quando elas deixam de fazer parte da vida e passam a se tornar o sentido da vida.

Porque, quando condicionamos nossa felicidade ao que é externo, inevitavelmente começamos a viver como se aquilo fosse o verdadeiro propósito da nossa existência.

É por isso que passamos tanto tempo perguntando o que ainda falta conquistar e tão pouco tempo perguntando quem estamos nos tornando enquanto buscamos tudo isso.

Talvez você já tenha vivido essa experiência...

Você desejou muito uma promoção.

Comprou aquele carro que sonhava.

Mudou para uma casa melhor.

Fez a viagem que esperou durante anos e, durante alguns dias, experimentou uma enorme sensação de felicidade.

Mas pouco tempo depois, essa sensação desapareceu e surgiu novamente aquela impressão silenciosa de que ainda faltava alguma coisa.

Isso acontece porque as conquistas externas produzem satisfação, mas não são capazes de produzir paz interior.

Basta confrontarmos qualquer uma dessas conquistas com a morte, para percebermos o verdadeiro valor que elas têm.

Imagine que você soubesse, com certeza, que hoje é seu último dia de vida.

Você daria a mesma importância para aquela promoção que tanto deseja?

Continuaria preocupado com a quantidade de seguidores que possui?

Faria questão de comprar aquele carro?

Ficaria angustiado porque alguém recebeu um reconhecimento maior do que o seu?

Ou perceberia que tudo aquilo que ocupa sua mente perderia imediatamente a importância diante do fato de que te restam apenas algumas horas de vida?

O que realmente continuaria importante para você?

Essa é a grande contribuição da reflexão sobre a morte: ela reorganiza nossas prioridades.

Pensar na morte não diminui a vida.

Pelo contrário, dá profundidade a ela.

Quem evita pensar na morte quase sempre acaba desperdiçando a própria vida, porque passa tempo demais perseguindo a felicidade no lugar errado e se esquece que a vida tem um prazo de validade que nós não conhecemos.

É por isso que pensar na morte não significa ser mórbido ou viver deprimido.

Significa apenas admitir uma possibilidade que sempre existiu, mas que fomos ensinados a ignorar.

Esse modo de viver está tão arraigado em nós, que até mesmo uma pessoa gravemente doente costuma acreditar que não morrerá.

Mas isso acontecerá e pode ser hoje.

Alguém perfeitamente saudável pode sofrer um acidente de carro, ser atropelado ao atravessar a rua ou simplesmente escorregar no banheiro e bater a cabeça.

A morte não pede autorização.

Ela simplesmente faz parte da vida.

E, justamente por isso, lembrar-se dela torna a vida muito mais significativa.

Quando você considera que pode morrer hoje, acontece uma mudança psicológica muito interessante.

Você começa a relativizar problemas que antes pareciam enormes.

Aquela discussão no trabalho deixa de parecer tão importante.

A ofensa que alguém fez, perde parte da força.

E a necessidade de provar que você está certo começa a diminuir.

Você passa a gastar menos energia tentando vencer discussões e começa a investir mais energia em coisas que tragam significado para sua vida.

Talvez esse seja o maior benefício dessa reflexão porque ela muda a qualidade dos nossos pensamentos.

Quando esquecemos que a vida é breve e que a hora da nossa morte é incerta, desperdiçamos tempo demais alimentando pensamentos que só servem para aumentar nosso sofrimento, tais como raiva, ressentimento, inveja, orgulho e desejo de vingança.

Passamos horas remoendo aquilo que alguém fez conosco, como se tivéssemos tempo infinito para desperdiçar.

Mas imagine novamente que hoje seja seu último dia de vida.

Você brigaria com seu filho?

Responderia aquele e-mail no calor da emoção?

Passaria duas horas discutindo política na internet ou brigando com um familiar por isso?

Passaria o dia estressado e dando coices nas outras pessoas porque alguém te fechou no trânsito?

Ficaria com raiva de uma pessoa que tentou puxar seu tapete na empresa sabendo que você nunca mais veria a cara dela?

Provavelmente não.

E isso revela algo muito importante: não são as circunstâncias que determinam nossas reações.

É a forma como escolhemos olhar para elas.

Quando temos nossa morte presente em nossa lembrança, começamos, naturalmente, desenvolver mais paciência.

E começamos a perceber que as pessoas que nos machucam também estão sofrendo e não sabem disso.

Uma pessoa tomada pela raiva, pela inveja, pelo orgulho ou pela necessidade de controlar os outros é uma pessoa sem liberdade interior porque ela acredita que a felicidade dela depende do comportamento das outras pessoas ou do que é externo a ela e, por isso, acaba produzindo sofrimento para si mesma.

E quando nós compreendemos isso, acontece uma verdadeira transformação dentro de nós.

A ansiedade diminui, a raiva perde força, aquilo que antes parecia sinônimo de felicidade perde importância e começamos a experimentar uma paz interior que nasce de uma nova compreensão.

Aos poucos, percebemos que talvez a felicidade que tanto buscamos nunca tenha estado nas circunstâncias externas, mas na qualidade da nossa própria mente.

E, curiosamente, quanto mais essa compreensão se aprofunda, mais fácil se torna sentir compaixão pelos outros, porque percebemos que eles continuam procurando felicidade exatamente no mesmo lugar onde nós também a procurávamos.

Essa talvez seja uma das maiores transformações que a reflexão sobre a morte pode produzir, porque ela deixa de ser um pensamento sobre o fim da vida e se torna uma forma de proteger nossa mente.

Passamos a perceber que toda vez que alimentamos pensamentos negativos dirigidos aos outros, somos nós os primeiros a sofrer.

Pensar na morte interrompe esse ciclo, pois ela nos lembra que não vale a pena transformar nosso dia – que pode ser o último – em um dia de ressentimento, nos convidando a usar esse tempo para desenvolver um bom coração.

Com mais paciência.

Mais compreensão.

Mais generosidade.

E mais compaixão.

Consequentemente, melhoramos não apenas nossa própria vida, mas também a vida das pessoas que convivem conosco.

Perceba que isso não significa abandonar sua carreira, vender tudo ou viver isolado do mundo.

Também não significa deixar de buscar crescimento profissional ou prosperidade.

Significa apenas colocar essas coisas nos seus devidos lugares.

Elas fazem parte da vida, mas não são o sentido da vida.

Existe uma frase que considero especialmente poderosa que diz assim…

"No mesmo dia da nossa morte, talvez ainda estejamos fazendo planos para a semana seguinte."

Essa frase revela como nossa mente vive presa à ilusão de que sempre haverá mais tempo.

E talvez seja justamente essa ilusão que torne tantas vidas vazias.

Vazias não de experiências, mas de significado.

Um exercício sobre pensar na morte

Por isso existe um exercício extremamente simples que pode transformar a maneira como você vive.

Ao acordar pela manhã, antes mesmo de começar o dia, diga silenciosamente para si:

“Pode ser que eu morra hoje.”

Ao sair para o trabalho, repita novamente:

“Pode ser que eu morra hoje.”

Faça isso antes de entrar em uma reunião difícil.

Antes de responder uma mensagem impulsivamente ou de discutir com alguém.

E se quiser ir mais além, salve esta mensagem como pano de fundo do seu celular para que você a veja sempre que for usá-lo.

Perceba que não se trata de um pensamento mórbido.

Pelo contrário. É um pensamento que produz lucidez e que nos lembra de viver este dia da melhor maneira possível.

Com mais paciência.

Menos agressividade.

Mais consciência.

Mais presença e com mais amor.

E ao repetir essa frase diariamente, pouco a pouco, você perceberá algo extraordinário acontecer.

A felicidade deixará de depender das circunstâncias e surgirá da qualidade dos seus próprios pensamentos.

Você proteger sua mente.

Reage menos.

Compreende mais.

E, pouco a pouco, passa a viver com uma profundidade que antes parecia impossível.

Talvez essa seja a maior contribuição de refletirmos sobre a morte.

Ela não nos prepara para morrer.

Ela nos prepara para viver.

Porque, quando aprendemos que a vida pode terminar hoje, finalmente começamos a viver este dia da maneira que ele merece ser vivido.

E agora?

Esse tipo de reflexão, sobre como confrontar nossa própria finitude muda completamente a forma como enxergamos o cotidiano e é um dos pilares centrais do meu livro "O que o sucesso não resolve".

Nele, desenvolvo essa ideia com mais profundidade, junto com outras ferramentas práticas para quem já conquistou muito e ainda sente que falta alguma coisa. Se esse texto tocou em algo real para você, talvez seja a hora de dar o próximo passo.

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