O mundo não está contra você

Um dos instintos mais primitivos do ser humano é se afastar da dor e se aproximar do prazer.

Dito de outra forma, é sempre buscar a felicidade.

E a maneira como geralmente buscamos essa felicidade é conquistando coisas: desde bens materiais, como casa, carro e dinheiro, até conquistas mais sutis, como status, prestígio, reconhecimento e admiração.

O problema dessa busca é que ela nunca trará a felicidade que desejamos.

Não porque essas coisas sejam ruins.

Mas porque estamos procurando no lugar errado.

Vamos analisar essa afirmação.

Todos nós desejamos ser felizes.

No fundo, tudo o que fazemos tem esse objetivo.

Trabalhamos porque acreditamos que isso nos trará felicidade.

Construímos relacionamentos porque acreditamos que eles nos farão felizes.

Buscamos reconhecimento porque acreditamos que ele nos trará felicidade.

Até mesmo as decisões mais difíceis da nossa vida costumam ser tomadas porque imaginamos que elas nos aproximarão de algum tipo de felicidade.

E a maneira que nos ensinaram a fazer isso foi relativamente simples:

Estude.

Construa uma carreira.

Seja financeiramente bem-sucedido.

Forme uma família.

Conquiste estabilidade.

E então, finalmente, você será feliz.

Entretanto, uma análise mais atenta mostra que essas conquistas não são a verdadeira fonte da felicidade.

E existe uma razão muito simples para isso.

Se algo é realmente causa de felicidade, então não pode ser causa de sofrimento.

Vamos verificar essa questão sob o ponto de vista da lógica analisando algumas das coisas que normalmente são apresentadas como fonte de felicidade.

Comecemos pelo dinheiro.

Se a posse de dinheiro fosse, por si só, fonte de felicidade, então ela jamais poderia ser fonte de sofrimento.

No entanto, basta observar o que acontece quando alguém acumula uma grande quantia financeira.

Imediatamente surgem preocupações, medos e inseguranças.

“O que acontecerá se eu perder esse dinheiro?”

“Onde devo investir para protegê-lo?”

“Será que alguém está se aproximando de mim por interesse?”

“Como posso viver com segurança sem medo de ser roubado?”

Percebe?

O mesmo dinheiro que prometia felicidade também produz ansiedade, medo, preocupação e uma série de pensamentos e sentimentos negativos.

Vamos para outro exemplo: uma viagem de luxo.

Se viajar de primeira classe, hospedar-se em um hotel cinco estrelas e passar dias em uma praia paradisíaca fosse fonte de felicidade, então essas experiências jamais poderiam se transformar em sofrimento.

No entanto, se você enjoar durante o voo, passar o dia confinado no quarto do hotel ou sofrer de uma insolação, nada da sua viagem de luxo parecerá agradável e você desejará voltar rapidamente para casa.

Por fim, pense no sucesso profissional.

Se a criação de um grande negócio ou a conquista de um alto cargo de gestão fossem fonte de felicidade, eles jamais poderiam ser fonte de sofrimento.

Mas todos nós conhecemos pessoas extremamente bem-sucedidas que vivem sob enorme pressão.

Pessoas que convivem diariamente com estresse, preocupação, medo de perder o que conquistaram e uma sensação constante de que precisam provar seu valor mais uma vez.

O que quero te mostrar é algo muito simples.

Nada do que é exterior possui, por si só, a capacidade de produzir felicidade permanente.

Porque tudo o que está fora de nós pode, dependendo das circunstâncias, produzir tanto prazer quanto sofrimento.

E se algo pode gerar sofrimento, então não pode ser fonte definitiva de felicidade.

Aliás, tente pensar em qualquer prazer da vida levado ao extremo.

Até aquilo que normalmente apreciamos se torna desagradável quando ultrapassa certos limites.

Então, se a felicidade não está fora, onde podemos encontrá-la?

Como você já deve imaginar, ela está no lugar que menos procuramos.

Dentro de nós.

Infelizmente nunca nos ensinaram a pensar dessa forma e a crença de que a felicidade vem do que é externo está tão arraigada em nós, que raramente paramos para nos questionar sobre sua validade ou eficácia.

Nesse sentido, precisamos refletir sobre uma questão importante: o que exatamente é felicidade?

Porque talvez estejamos usando essa palavra sem compreender seu verdadeiro significado.

De forma simples, felicidade é paz interior.

É uma mente livre de pensamentos agitados.

Livre de ressentimentos, medos, raiva, angústia e toda sorte de sentimentos negativos.

Lembre-se de um momento em sua vida em que você se sentiu genuinamente feliz.

Não aquela alegria efêmera de um jogo de futebol, mas aquela sensação de tranquilidade que fazia você se sentir bem.

Como estava sua mente naquele momento e qual era a qualidade dos seus pensamentos?

Muito provavelmente você estava em paz.

Não estava brigando com a realidade… não se sentia consumido por preocupações… não estava preso ao passado, nem ansioso pelo futuro.

Você estava simplesmente bem.

Em outras palavras, você estava em paz consigo mesmo e com aquilo que estava vivendo.

Essa constatação nos leva a uma reflexão muito importante.

Se felicidade é paz interior, então talvez estejamos cometendo um erro ao procurar no mundo externo aquilo que só pode ser encontrado dentro de nós.

E se isso for verdade, por que agimos assim?

Por que insistimos em buscar fora aquilo que parece nascer dentro?

Porque existe uma crença silenciosa que carregamos desde sempre.

Uma crença tão profundamente enraizada que raramente paramos para questioná-la.

A crença de que somos seres separados do restante da vida.

Acreditamos que existe um “eu” aqui dentro e um mundo lá fora.

Me diga se você não tem essa sensação… "Sou eu aqui… e o mundo ao meu redor".

As coisas acontecem “fora de mim” porque eu estou vendo-as acontecerem.

O problema dessa percepção equivocada é que quando as circunstâncias exteriores não agradam esse “eu” interior, ele se sente infeliz.

É como se o mundo externo precisasse se organizar de maneira que tudo acontecesse em nosso benefício.

Me diga se você já teve pensamos parecidos como esses:

“Quando aquela pessoa mudar, eu vou parar de me incomodar com ela.”

“Depios que minha situação financeira melhorar, eu vou ficar bem.”

“No dia que eu alcançar essa promoção, eu vou conquistar determinado objetivo.”

No entanto, nossa própria vida mostra que condicionar nossa felicidade ao que é externo quase nunca acontece.

E a razão para isso é achar que somos seres independentes de tudo e de todos.

De fato somos indivíduos, mas independentes não.

Na verdade, existe uma diferença enorme entre ser um indivíduo e acreditar que somos independentes.

Basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber o quanto nossa existência depende de tudo ao nosso redor.

Por exemplo, o café que você tomou hoje pela manhã dependeu de agricultores que você nunca conheceu.

Dependeu da chuva que caiu em determinada região.

Dos caminhoneiros que fizeram o transporte dos grãos.

Dos trabalhadores que fabricaram as embalagens.

Da energia elétrica que impulsionou todas as máquinas que manufaturaram o café e dos funcionários do supermercado que o colocaram na gôndola para você comprá-lo.

Literalmente centenas de fatores invisíveis precisaram acontecer para que você pudesse tomar uma simples xícara de café.

O mesmo vale para a roupa que você veste.

Para o celular que está no seu bolso.

Para o carro que você dirige.

A casa onde mora.

O conhecimento que você possui e até para a própria língua que você fala.

Nada disso surgiu isoladamente.

Tudo veio através de uma rede imensa de relações.

E aqui está o ponto que muda tudo.

Sempre que você se coloca como um ser completamente individual e separado do restante da vida, você sofre.

Porque quando você acredita que é uma ilha, qualquer coisa que acontece ao redor parece uma ameaça pessoal.

O mundo parece conspirar contra você e isso se expressa na forma de pensamentos e sentimentos negativos que podem ser exteriorizados ou acumulados interiormente; em ambos os casos, gerando infelicidade.

Mas existe uma outra forma de olhar para a vida.

Quando você começa a observar com mais atenção, percebe algo fascinante.

Nada existe por si só.

Nenhum fenômeno surge do nada.

Tudo o que existe depende de outras coisas para existir.

A chuva depende do oceano, do vento, da temperatura e de outros inúmeros fatores.

Uma empresa depende de clientes, fornecedores, colaboradores e do mercado.

Um relacionamento depende de dois, de histórias, de circunstâncias e de tempo.

Tudo e todos estão interconectados numa rede infinita de relações.

E quando você realmente internaliza isso, você começa a expandir sua consciência a respeito da sua relação com a vida.

Vou te dar um exemplo simples.

Você decide sair de casa.

Aí começa a chover.

Ou você está atrasado e o trânsito trava.

O que acontece na sua mente nesse momento?

Para a maioria das pessoas, a reação é quase automática.

Uma irritação, uma frustração ou uma sensação de que o mundo escolheu exatamente esse momento para trabalhar contra você.

“Só porque eu resolvi sair, começou a chover.”

“Só porque estou atrasado, o trânsito está impossível.”

Como se o universo tivesse se organizado especificamente para te atrapalhar.
Mas a chuva não sabe que você saiu de casa e o trânsito não sabe que você está atrasado.

Esses fenômenos fazem parte de uma rede de causas e circunstâncias que existem independentemente de você.

Quando você toma essa consciência, você percebe como a irritação não tem o menor sentido.

Não porque o problema desapareceu.

A chuva continua caindo e o trânsito continua parado.

Mas a sua relação com esses fatos muda completamente.

Você para de tratar uma circunstância impessoal como se fosse um ataque pessoal e em vez de sentir raiva ou irritação, você aceita a situação e faz aquilo que é possível para sanar o problema.

Falar desta maneira pode parecer simples ou trivial mas os impactos dessa postura são significativos porque, quando você trata as questões externas da forma correta, a qualidade dos seus pensamentos permanece inalterada, não permitindo que pensamentos e sentimentos negativos dominem sua mente.

É exatamente aí que mora a paz interior.

Esse mesmo princípio se aplica a situações muito mais complexas.

No relacionamento com o cônjuge que você acha que não te entende com o chefe que humilha em público ou no negócio que não cresce no ritmo que você planejou.

Nosso vício é colocar esses problemas do lado de fora.

"É culpa é do meu cônjuge."

“Meu chefe é um idiota.”

"É o mercado que está péssimo."

“O país não vai pra frente.”

E enquanto o problema está lá fora, você está preso aqui dentro, reagindo, sofrendo e perdendo clareza.

Mas quando você compreende que os fenômenos externos fazem parte de uma rede complexa de relações e não são ações direcionadas a você, algo importante acontece.

A mente para de reagir no automático e começa a observar.

E uma mente que observa em vez de reagir, tem acesso a algo que uma mente perturbada não tem.

Clareza.

E com clareza surgem alternativas que antes eram invisíveis.

Surgem melhores perguntas e, consequentemente, melhores formas de reagir às situações.

Em vez de se perguntar “por que isso está acontecendo comigo?”, você passa a perguntar “o que eu posso fazer a partir daqui?”

Essa é a diferença entre uma mente tomada pela tempestade e uma mente que observa a tempestade de um lugar mais estável.

O exercício, então, é este: sair do centro do universo.

Não abrir mão da sua individualidade, porque você é, de fato, um indivíduo.

Mas reconhecer que essa individualidade existe dentro de uma rede infinita de relações.

Que o que acontece ao redor não é uma mensagem dos Deuses para te prejudicar.

É simplesmente a vida se desdobrando através de mil causas e circunstâncias que ninguém controla completamente.

Quando você passa a enxergar dessa forma, os pensamentos e sentimentos negativos perdem a força que tinham.

Não porque a vida ficou mais fácil.

Mas porque você parou de alimentá-los com a crença de que o mundo está contra você.

E o resultado disso é simples de descrever, mas profundo de sentir.

Uma mente mais serena.

Mais clara.

Capaz de enfrentar o que for necessário sem ser destruída pelo que é inevitável.

Em outras palavras.

Paz interior.

Independente do que está acontecendo lá fora.

Você pode ver o vídeo deste artigo aqui.


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