Como controlar a raiva: um caminho baseado em paciência e compaixão
A raiva é um dos sentimentos mais destruidores que nós podemos ter.
Ela é capaz de acabar com nossos relacionamentos pessoais, destruir nosso sucesso profissional e até fazer com que a gente ganhe menos dinheiro.
A raiva é tão difícil de ser dominada, que quando nos damos conta já explodimos e falamos coisas das quais mais tarde nos arrependeremos.
Hoje quero te explicar porque a raiva surge, qual é o mal que ela te faz e como transformá-la em um poderoso ativo que pode transformar sua vida e a vida das pessoas com as quais você convive.
Vamos começar entendendo porque sentimos raiva.
Quando ficamos com raiva de algo ou alguém, estamos fazendo uma suposição muito específica: a de que algo externo a nós é a causa do nosso sofrimento.
Pode ser o chefe no ambiente de trabalho, algo que o cônjuge falou ou a fila do supermercado que não anda.
E a partir dessa suposição nasce uma lógica que parece simples: se algo ou alguém me causa raiva, então eu preciso retaliar ou me vingar para afastar o sofrimento de mim.
Só que esse raciocínio tem uma falha fundamental porque a raiva é uma sensação interna. Ela não está na outra pessoa nem na situação. Ela está dentro de nós, na forma como nossa mente interpretou e reagiu ao que aconteceu.
É por isso que retaliar ou ficar remoendo a situação não é uma boa saída porque, por mais que você tenha razão, por mais que a outra pessoa possa ser punida ou a situação resolvida, se não trabalharmos na origem da raiva, ela continuará a se manifestar ao ser acionada pela próxima situação que nos contrarie.
Este é o passo número um para a mudança: entender que a raiva está em nós, e não em algo ou alguém. E se a raiva é algo interno, então é em nós que o trabalho deve ocorrer, mais especificamente em nossa mente.
O segundo ponto para eliminar a raiva é entender o mal que ela nos faz.
A raiva tem a capacidade de dominar nossa mente, fazendo com que percamos clareza e façamos coisas que quase sempre vão gerar arrependimento e problemas futuros.
Quando somos tomados pela raiva ficamos remoendo as situações, determinados em achar os culpados como se a gente precisasse apontar o dedo para alguém. E, enquanto fazemos isso, perdemos a oportunidade de resolver a situação.
Porque, quando um problema acontece, ele já se tornou um fato e não adianta gastar energia criticando a situação ou desejando que ela não tivesse acontecido.
A única coisa que está em seu poder é determinar como você vai se relacionar com a situação: com raiva ou de uma maneira mais assertiva.
Mudar a postura diante do que aconteceu, não muda, de fato, a situação, mas muda a qualidade dos nossos pensamentos. E com pensamentos mais claros, conseguimos agir de forma mais inteligente e eficaz.
Pensa no seu ambiente de trabalho. Você conhece alguém que já foi ao banheiro da empresa pra chorar de raiva?
Já saiu de uma reunião com o coração acelerado, remoendo mentalmente o que fulano disse, e pensando em como você responderá a ele?
Já enviou um e-mail no calor da emoção e ficou com raiva de si mesmo porque não deveria tê-lo enviado?
A raiva que essas situações geram é silenciosa e persistente e te acompanha para o resto do dia, seja no jantar em casa com a família, na hora de dormir e no dia seguinte quando você tem que voltar para o trabalho e encarar novamente o agressor.
Sentir raiva não resolve as situações. Na verdade, só piora porque ela nos mantém focados no problema em vez de nos mover em direção à solução.
É por isso que quando agimos motivados pela raiva tomamos decisões que, quase sempre, nos prejudicarão ou que serão fonte de mais raiva no futuro.
Então qual é a alternativa?
A alternativa é mudar a forma como encaramos a situação.
Em outras palavras, mudar nosso estado mental.
O que proporei agora não é fácil, leva tempo e requer treino, mas seus resultados são transformadores.
De forma simples, a ideia é transformar estados mentais de raiva em estados mentais de paciência e compaixão.
E eu sei que num primeiro momento pensar em trocar raiva por paciência e compaixão pode parecer brincadeira de mau gosto, mas quero te mostrar através de lógica porque esse é um bom caminho a se seguir.
O primeiro passo na transformação é a paciência.
Como vimos há pouco, a raiva não está fora de nós, mas em nossa mente.
Se isso não fosse verdade, uma mesma situação deveria gerar raiva em todas as pessoas, mas, por experiência, nós sabemos que pessoas diferentes reagem de formas diferentes a um mesmo evento.
Isso significa que é possível mudarmos nosso estado mental de raiva desde que estejamos abertos a isso.
Nesse sentido, quando aceitamos com paciência algo que não saiu como esperávamos, algo que desejávamos muito e não conseguimos ou uma situação que surgiu de maneira inesperada, o problema começa a perder força.
Às vezes ele até permanece, mas deixa de nos dominar.
Sei que sugerir a paciência como antídoto para a raiva pode soar estranho no contexto corporativo, mas deixa eu te propor uma forma de pensar sobre isso.
Imagina que alguém bate na sua cabeça com uma vara. Quem te causou a dor, a vara ou a pessoa que a segurou? A dor física veio da vara. A pessoa foi o instrumento.
Então você ficaria com raiva da vara? Provavelmente não, porque a vara não tem consciência do que está fazendo.
Da mesma forma, quando uma pessoa nos prejudica, ela está sendo movida por algum estado mental perturbado dentro dela, seja raiva, medo, insegurança ou necessidade de controle.
E esse estado mental reduziu a capacidade dela de agir com clareza, o que gerará consequências negativas para ela e não para nós.
Em outras palavras, assim como no exemplo da vara, a pessoa que te agrediu é só um instrumento de um estado mental perturbado.
É por isso que precisamos de paciência, porque a outra pessoa não tem consciência de quão errada está sendo a forma dela agir.
E esse estado mental reduziu a capacidade dela agir com clareza, o que gerará consequências negativas para ela e não para nós.
Nesse sentido, o primeiro passo na construção de uma mentalidade de paciência é aprender a não retaliar – nem durante, nem depois do fato ocorrido.
Porque, sempre que passamos por uma situação difícil e existe alguém envolvido, é muito fácil sentir raiva e acreditar que revidar vai resolver alguma coisa.
Mas, se olharmos com sinceridade, veremos que revidar nunca funciona e só piora as coisas.
A ideia de revidar parte do princípio que algo ou alguém nos causou mal, mas como já vimos, esse mal é uma percepção individual que pode ser diferente de pessoa para pessoa.
O problema de revidarmos motivados pela raiva é que esse ato nos prejudica em primeiro lugar, já que a raiva é um estado mental perturbado que nos impulsiona a cometer ações que normalmente não cometeríamos.
Ela nos leva a agredir, a ofender, a nos vingar e a falar coisas das quais nos arrependemos.
E toda ação que nasce de um estado mental negativo acaba produzindo mais sofrimento para nós mesmos.
Agir com raiva parece natural porque estamos muito habituados a reagir dessa forma, mas aquilo que é habitual nem sempre é saudável.
Na verdade, a raiva é uma das principais causas do nosso sofrimento, porque quando sentimos vontade de nos vingar, estamos colocando na outra pessoa a causa da nossa dor, mas como vimos o sofrimento é uma experiência interna.
Nosso equívoco é achar que, se a outra pessoa sofrer, finalmente ficaremos bem, mas isso é uma ilusão porque nossa paz não depende do sofrimento de ninguém.
Depende da qualidade dos nossos pensamentos.
Pensamentos negativos geram sofrimento e pensamentos virtuosos geram felicidade.
Por isso é tão importante aprender a observar os nossos estados mentais, já que a felicidade e o sofrimento nascem da maneira como percebemos e interpretamos aquilo que nos acontece.
Portanto, precisamos aprender a perceber como a nossa mente reage diante das circunstâncias, especialmente naqueles momentos em que somos contrariados, quando algo ameaça nossos desejos ou quando nos sentimos injustiçados porque a mente que pretende prejudicar os outros é a mesma que está produzindo sofrimento dentro de nós.
Então, como podemos superar esse desejo quase instintivo de revidar?
Combinando duas atitudes: a aceitação paciente e a compaixão.
Aceitação paciente é o que nós acabamos de ver. Se algo aconteceu, não adianta chorar o leite derramado.
Em outras palavras, nossa recusa em aceitar um fato não muda o fato.
E por que gerar compaixão pela pessoa que nos prejudicou?
Essa talvez seja a parte mais difícil porque, se alguém nos prejudicou deliberadamente, nossa reação automática é condená-la.
Mas pense por um instante.
Uma pessoa tomada pela raiva, pela inveja ou pela cobiça já está sofrendo.
Ninguém que esteja em paz consigo mesmo sente necessidade de ferir os outros.
Em outras palavras, uma pessoa dominada por estados mentais negativos inevitavelmente colherá sofrimento, porque já está carregando esse sofrimento dentro de si.
Por isso, em vez de alimentar o ódio, podemos pensar:
“Coitada dessa pessoa. Ela está dominada por algo que a faz sofrer.”
Isso não significa concordar com o comportamento dela, se tornar passivo ou aceitar abusos.
Significa apenas não adicionar mais sofrimento ao sofrimento que já existe, ao mesmo tempo que expressamos um sentimento genuíno de compaixão pela pessoa.
Essa mudança de mentalidade é um treino e não acontece da noite para o dia.
O primeiro passo é reconhecer nossa própria mente de raiva e, aos poucos, perceber que não somos nossa raiva nem nossos pensamentos negativos.
Eles surgem, permanecem por algum tempo e depois desaparecem, assim como as nuvens negras de uma tempestade que, quando vão embora, dão lugar novamente a um lindo céu azul.
O segundo passo é, reconhecer que a outra pessoa não tem consciência de como está agindo e começar a nutrir um sentimento genuíno de compaixão por ela.
Por isso, o verdadeiro treino da mente é um treino de proteção.
Proteção contra nós mesmos e contra nossos impulsos automáticos.
Proteção contra a tendência de colocar a causa do nosso sofrimento sempre do lado de fora.
Isso exige muita humildade, porque é mais fácil culpar o outro, a situação ou o mundo, a assumir a responsabilidade pela própria felicidade.
Mas quando você toma consciência de que a raiva não é causada por algo que é externo, essa responsabilidade pela própria felicidade deixa de ser um peso e se transforma em poder.
Porque, se a qualidade da nossa vida depende da qualidade da nossa mente, então existe algo que podemos fazer.
Podemos treinar.
Podemos observar.
E podemos mudar.
A capacidade de não perder a calma quando somos provocados e de sentir compaixão por quem nos prejudica é sinal de grande preparo mental.
Não de fraqueza.
Pelo contrário! É um sinal de força interior.
Pense em todas as áreas da sua vida.
No ambiente de trabalho.
Naquele colega agressivo.
No chefe difícil.
Nos conflitos familiares.
Ou nas pequenas irritações do dia a dia.
Todas essas situações podem se tornar oportunidades para você desenvolver paciência e sentir compaixão por pessoas que infelizmente não tiveram a oportunidade de ter essa compreensão que você tem agora.
Sem essas pessoas e circunstâncias, talvez nunca tivéssemos a oportunidade de descobrir o tamanho da nossa própria reatividade.
Então, talvez, em vez de sentirmos raiva, deveríamos sentir gratidão por essas pessoas porque, de alguma forma, elas estão sendo nossas professoras mostrando exatamente onde ainda precisamos crescer.
Quando conseguimos enxergar dessa forma, a perspectiva muda e as outras pessoas deixam de ser inimigas e passam a ser oportunidades de desenvolvimento.
Isso não muda automaticamente as nossas emoções, mas começa a mudar a maneira como nos relacionamos com elas.
E pouco a pouco começamos a desconfiar das nossas reações automáticas.
“Será que preciso mesmo sentir raiva agora?”
“Será que preciso transformar essa situação em sofrimento?”
Esse é o início da liberdade interior!
A prática da paciência nunca atrapalha as conquistas materiais.
Pelo contrário.
Pessoas equilibradas constroem melhores relacionamentos, tomam melhores decisões e inspiram mais confiança.
A paciência não nos torna menos competitivos.
Ela nos torna mais lúcidos, mais estáveis e mais fortes.
Porque nenhuma conquista exterior é capaz de compensar uma mente permanentemente perturbada.
No fim, a verdadeira vitória não é fazer o outro sofrer.
É não permitir que a raiva governe a nossa vida.
Porque toda vez que conseguimos responder com clareza em vez de reagir com raiva, estamos dando um pequeno passo em direção à felicidade.
E, talvez, seja exatamente isso que todos nós estamos procurando.
Se esse assunto fez sentido para você, saiba que o que discutimos aqui é apenas o começo. Há muito mais a explorar sobre como a mente funciona e como podemos treinar estados mentais que nos aproximam da paz interior em vez de nos afastar dela.
Nesse sentido, se você quiser continuar essa conversa e entender como desenvolver uma mente mais estável, mais serena e menos governada pela raiva, eu te convido a ler um livro que escrevi sobre esse assunto.
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