O que é a mente?

Quero te lançar um desafio.

Se eu te perguntasse agora o que é uma cadeira, provavelmente você responderia sem pensar.

Se te perguntasse o que é um carro, um cachorro ou um computador, a resposta também viria rapidamente.

Mas deixe-me fazer uma pergunta diferente.

O que é a mente?

É curioso perceber que usamos a mente o tempo todo, mas poucas pessoas conseguem explicar o que ela realmente é.

A mente está presente em absolutamente todas as nossas experiências. É através dela que pensamos, lembramos, sentimos, sonhamos, fazemos planos, tomamos decisões e interpretamos o mundo.

No entanto, quase nunca paramos para refletir sobre o impacto dos nossos pensamentos em nossas vidas porque não paramos para observar nossa própria mente.

Nesse sentido, antes de tentar defini-la, vale a pena começar pelo caminho contrário entendendo, primeiro, o que a mente não é.

A mente não é o cérebro

É comum ouvirmos frases como:

“Minha cabeça tá a mil por hora e não para de pensar.”

Ou:

“Tô com tanta coisa na cabeça que estou até cansado de tanto pensar.”

Quando falamos frases como essas geralmente pensamos na cabeça, se referindo ao cérebro.

Mas, embora cérebro e mente estejam profundamente relacionados, eles não são a mesma coisa.

O cérebro faz parte do corpo.

Ele possui forma, peso e ocupa espaço.

Pode ser visto em um exame de imagem, estudado por médicos e até operado por um neurocirurgião.

A mente é diferente.

Ela não tem cor.

Não tem peso.

E não pode ser fotografada.

Você não consegue apontar para um lugar específico e dizer:

“Esta é a minha mente.”

Então se a mente não é o cérebro, o que ela é exatamente?

Talvez a maneira mais simples de compreender essa diferença seja observar o que acontece todas as noites, quando dormimos.

O sonho que parecia real

Você já teve um sonho tão intenso que, enquanto estava acontecendo, tinha certeza de que tudo era real?

Talvez estivesse fugindo de alguém ou conversando com uma pessoa que já morreu.

Pode ser que tenha sonhado que perdeu alguém que ama, caiu de um lugar muito alto ou recebeu uma notícia extraordinária.

Enquanto o sonho acontecia, suas emoções eram completamente verdadeiras.

Você sentia medo, alegria, angústia e alívio.

Às vezes o coração acelerava. Outras, você acordava chorando ou sorrindo.

Tudo parecia absolutamente real, até que veio o despertar e, em poucos segundos, toda aquela realidade desapareceu.

As pessoas, os lugares, a história… tudo desapareceu.

Mas, enquanto você sonhava, nada daquilo parecia uma ilusão.

Parecia a própria realidade.

Agora observe um detalhe curioso.

Como estava o seu corpo durante o sonho?

Provavelmente deitado na cama, praticamente imóvel.

Quem estava vivendo aquela experiência não era o corpo.

Era a mente.

Isso não significa que corpo e mente sejam independentes um do outro.

Eles se influenciam continuamente.

Quando o corpo adoece, a mente costuma sentir os efeitos.

E quando a mente sofre, o corpo também responde.

Mas uma coisa não é a outra.

Perceber essa diferença é importante porque nos ajuda a compreender algo ainda mais interessante.

Se a mente não é um órgão do corpo, então o que ela é?

Afinal, o que é a mente?

Talvez a definição mais simples seja esta:

A mente é aquilo que percebe e experimenta tudo o que acontece em nossa vida.

Ela não tem forma, cor ou tamanho e sua função é perceber, classificar e interpretar os acontecimentos.

E é justamente aqui que começa uma das descobertas mais importantes deste artigo.

Nós costumamos acreditar que experimentamos o mundo exatamente como ele é.

Mas isso não é verdade.

Na realidade, experimentamos o mundo da maneira como nossa mente o percebe e o interpreta.

É por esta razão que não reagimos às coisas como elas são. Reagimos ao significado que nossa mente atribuiu a elas.

Essa diferença parece pequena, mas ela transforma por completo nossa maneira de viver, porque é justamente nela que começam todos os nossos conflitos, preocupações e sofrimentos.

Porém, antes de entendermos por quê isso acontece, precisamos conhecer um pouco melhor como a mente funciona.

E, para isso, precisamos compreender qual é a sua principal função.

Qual é a função da mente?

Se tivéssemos que resumir a função da mente em poucas palavras, poderíamos dizer o seguinte:

A mente existe para perceber e compreender.

Ela recebe informações através dos nossos cinco sentidos, identifica aquilo que está diante de nós e procura dar sentido à experiência.

Por exemplo, quando você olha para um relógio, não precisa parar para pensar no que está vendo.

Em uma fração de segundo sua mente reconhece aquele objeto, identifica sua função e compreende que ele serve para mostrar as horas.

O mesmo acontece quando você vê uma árvore, uma bicicleta ou uma xícara de café.

Esse processo é tão rápido que parece automático.

E, na verdade, é.

Mas existe uma função da mente que costuma passar despercebida.

Além de perceber as coisas, ela também atribui nomes e significados a tudo o que encontra.

Quando você olha para um objeto de madeira com quatro pernas, um assento e um encosto, sua mente imediatamente diz:

“Isso é uma cadeira.”

Você não faz esse raciocínio conscientemente.

De fato, a classificação acontece quase instantaneamente.

E esse mecanismo é extremamente útil.

Imagine como seria difícil viver em sociedade se, toda vez que alguém dissesse “pegue aquela cadeira”, você precisasse analisar cuidadosamente o objeto antes de entender do que a pessoa estava falando.

Graças a essa capacidade de identificar, classificar e nomear, conseguimos nos comunicar, aprender e tomar decisões rapidamente.

Até aqui, tudo funciona muito bem.

O problema começa quando a mente utiliza exatamente esse mesmo mecanismo para interpretar pessoas, situações e acontecimentos.

Uma cadeira é realmente uma cadeira?

Quero fazer uma pergunta que, à primeira vista, pode parecer estranha.

Uma cadeira é realmente uma cadeira?

Provavelmente sua resposta será:

“Claro que sim.”

Mas imagine que um cachorro entre agora nesta sala e olhe para a cadeira que eu estou sentado.

Para ele, esse objeto não é uma cadeira.

O conceito “cadeira” simplesmente não existe na mente do cachorro.

Ele pode farejá-la, deitar ao lado dela, roer um dos pés ou simplesmente ignorá-la, mas dificilmente olhará para esse objeto pensando:

“Que bela cadeira.”

Agora imagine um passarinho pousando sobre o encosto.

Para ele, isso também não é uma cadeira.

É apenas um lugar onde ele pode descansar por alguns instantes antes de voar novamente.

Agora perceba o que aconteceu.

O objeto físico continua exatamente o mesmo.

O que mudou foi a maneira como cada mente o percebeu.

Isso nos mostra algo muito interessante.

O objeto existe, mas o significado que damos a ele não está no objeto em si.

Está na mente de quem observa o objeto.

Foi nossa mente que aprendeu, desde a infância, que aquele conjunto de quatro pés, encosto e assento recebe o nome de cadeira e serve para sentar.

Desde então, basta um rápido olhar para que essa classificação aconteça automaticamente.

Para objetos físicos, isso normalmente não causa nenhum problema.

Ninguém sofre porque chama uma cadeira de cadeira.

A dificuldade aparece quando usamos esse mesmo mecanismo para interpretar acontecimentos da nossa vida.

É exatamente aí que começam todos os nossos conflitos.

Porque a mente passa a fazer com pessoas e situações, aquilo que faz com os objetos.

Ela classifica, rotula e interpreta e passa a acreditar que sua interpretação corresponde exatamente à realidade.

Isso acontece, por exemplo, quando sentimos raiva quando uma pessoa faz ou fala algo que nossa mente observou e classificou como ‘ruim’.

Ou quando sentimos ansiedade porque nossa mente observou uma situação e a interpretou como um perigo iminente quando, na verdade, nada aconteceu ainda.

A narradora que vive dentro de nós

Imagine que, dentro de cada um de nós, exista uma voz que é uma narradora.

Ela nunca dorme.

Nunca faz pausa e está sempre comentando tudo o que acontece.

Você envia uma mensagem, a pessoa demora para responder e essa voz interior começa imediatamente a falar:

“Ela só pode estar me ignorando.”

Se um colega passa por você e não cumprimenta a voz já fala:

“Por que ele não falou comigo? Será que ficou chateado com alguma coisa que eu disse?”

Seu chefe pede para conversar no fim do expediente a voz já trata de prever o futuro.

“Acho que vem algum problema aí… será que serei demitido?”

Perceba que, na maioria das vezes, esses pensamentos aparecem de forma tão rápida que nem percebemos que estamos construindo uma história.

Em outras palavras, confundimos interpretação com realidade.

E é justamente essa confusão que faz com que soframos desnecessariamente.

Os fatos costumam ser simples, mas as histórias que criamos sobre eles nem sempre são.

Vamos observar como esse mecanismo funciona em uma situação do dia a dia.

A mensagem que não chegou

Imagine que você envia uma mensagem importante para alguém.

Pode ser seu marido, sua esposa, um filho, um amigo ou alguém com quem você está começando um relacionamento.

A pessoa costuma responder rapidamente.

Mas, dessa vez, passam duas horas.

Depois quatro.

Depois o dia inteiro.

Sua mente entra imediatamente em ação.

“Será que ela está chateada comigo.”

“Será que falei alguma coisa errada.”

“Por que ela está me ignorando?”

“Ela só pode ter perdido o interesse.”

“Será que aconteceu alguma coisa ruim?”

Enquanto isso, você continua trabalhando, dirigindo ou fazendo qualquer outra atividade.

Mas, na verdade, sua mente já não está mais ali.

Ela está ocupada escrevendo uma história.

Cada minuto sem resposta parece confirmar que sua interpretação está correta.

Você começa a lembrar da última conversa.

Repassa cada frase.

Analisa cada detalhe e , sem perceber, passa a sofrer por uma realidade que existe apenas dentro da sua própria mente.

Horas depois, finalmente chega a resposta.

“Desculpa! Meu celular ficou sem bateria o dia inteiro.”

Perceba o que aconteceu.

A ausência de resposta era um fato.

O restante era interpretação.

A história nasceu exclusivamente da forma como sua mente interpretou aquela situação.

O que aconteceu?

O problema é que, normalmente, nossa mente não apresenta situações como essa como hipóteses.

Ela as apresenta como certezas.

E nós acreditamos nelas imediatamente.

É justamente aí que nasce todo o sofrimento que experimentamos: das histórias que contamos a nós mesmos sobre aquilo que aconteceu.

É como se nossa mente escrevesse um roteiro enquanto a vida ainda está acontecendo.

E, antes mesmo de sabermos como a história termina, já começamos a sofrer pelo final que imaginamos.

Perceber esse mecanismo não resolve nossos problemas, mas mostra que precisamos mudar nossa relação com eles, ou, melhor dizendo, mudar nossa relação com nossa mente.

Essa talvez seja uma das descobertas mais importantes que podemos fazer sobre nossa mente.

Então, por que compreender a mente muda a nossa vida?

Talvez, neste momento, você esteja pensando:

“Tudo isso faz sentido, mas, na prática, como posso mudar minha relação com os pensamentos que minha mente produz?”

A resposta é simples: com prática.

Em primeiro lugar, devemos tomar consciência de como a mente opera – compreender o que é a mente e qual é sua função.

Em segundo lugar, romper com o hábito profundamente enraizado de aceitar automaticamente o que a mente classifica como verdadeiro e questionar o que percebemos.

Finalmente, exercitar um novo hábito que faça com que percebamos o que as coisas realmente são.

Na teoria algo simples, mas, na prática, bem difícil de se fazer.

Imagine que você está dirigindo no trânsito e um motorista fecha seu carro de forma imprudente.

Em uma fração de segundo você é dominado pela raiva e sua mente constrói uma narrativa que te coloca no centro.

“Ele fez isso de propósito! É um imbecil!”

Um simples incidente de trânsito foi capaz de melar seu dia.

Mas, e se o outro motorista nem viu seu carro?

E se ele estivesse correndo para o hospital levando um passageiro que acabou de sofrer um AVC?

Percebe que não dá para saber o que se passava com a outra pessoa?

Mas sua mente rapidamente levou para o lado pessoal e o fez sofrer sentindo raiva quando, na verdade, você nem mesmo sabe se a outra pessoa fez algo de forma deliberada para te prejudicar.

Esse exemplo pode ser extrapolado para tudo o que sua mente analisa e classifica e essa é a origem de nosso sofrimento – uma ignorância a respeito do que as coisas verdadeiramente são.

É exatamente por isso que compreender a mente é tão libertador.

Não porque passaremos a controlar todos os nossos pensamentos.

Isso seria impossível.

Os pensamentos continuarão surgindo.

As emoções continuarão aparecendo.

E as situações difíceis continuarão fazendo parte da vida.

Mas, à medida que compreendemos como a mente funciona, deixamos de acreditar automaticamente em tudo o que ela nos conta e começamos a criar um pequeno espaço entre aquilo que acontece e a forma como reagimos.

E é justamente nesse espaço que nasce a liberdade.

Porque percebemos que nem todo pensamento corresponde à realidade.

Nem toda emoção revela a verdade.

E nem toda interpretação merece ser aceita sem questionamento.

Talvez esse seja o primeiro passo para uma vida com menos sofrimento.

Não mudar o mundo.

Mas aprender, pouco a pouco, a mudar a maneira como nossa mente interpreta a realidade, mudando também o nosso próprio mundo.

Por que quem aprende a compreender a própria mente começa, pouco a pouco, a compreender a própria vida.

Você pode ver este vídeo aqui.


Andres Postigo
Andres Postigo

Andres Postigo é autor, palestrante e estrategista, dedicado a explorar a relação entre espiritualidade, propósito, desenvolvimento humano, liderança e realização profissional. Com décadas de experiência no mundo dos negócios e um profundo interesse pelo desenvolvimento da mente, traduz ensinamentos de sabedoria espiritual para uma linguagem prática e aplicável à vida cotidiana, ajudando pessoas a encontrar mais sentido, equilíbrio, clareza e paz interior em meio aos desafios da vida moderna.

Leave a Reply

Your email address will not be published.