O sofrimento não está onde você pensa

Existe uma ideia tão enraizada em nossa cultura que nós raramente paramos para questioná-la.

A ideia de que o nosso sofrimento vem das circunstâncias externas  do que está fora da gente.

Desde muito cedo nós aprendemos a pensar dessa maneira.

Acreditamos que sofremos porque não temos dinheiro suficiente...

O casamento não é como nós gostaríamos...

Nosso chefe é difícil...

A economia está ruim...

Fomos injustiçados....

Não recebemos o reconhecimento que merecíamos…

E porque a vida não aconteceu exatamente da forma que imaginávamos.

De forma similar, acreditamos que a felicidade também vem de fora.

Ela vem quando conseguimos a promoção.

Quando encontramos a pessoa certa...

Comprarmos a casa desejada...

Alcançamos determinado patrimônio...

Nossos filhos crescem...

E quando finalmente resolvemos aquele problema que parece impedir nossa paz.

É como se vivêssemos em uma espécie de negociação permanente com a vida.

Dizemos para nós mesmos:

"Quando isso mudar, ficarei bem."

O problema é que, para a maioria das pessoas, esse momento nunca chega.

Porque a vida muda.

Os objetivos mudam.

As circunstâncias mudam.

Mas a inquietação interior permanece.

Talvez você já tenha experimentado isso.

Talvez tenha passado anos perseguindo uma meta profissional...

Ou imaginado que, quando chegasse lá, finalmente sentiria tranquilidade.

E então você chegou.

Recebeu a promoção.

Abriu a empresa.

Conquistou o cargo.

Atingiu a renda desejada.

E, durante alguns dias ou algumas semanas sentiu satisfação, mas, pouco tempo depois, surgiu uma nova preocupação.

Uma nova ansiedade.

Uma nova insegurança.

Ou uma nova meta, como se a mente dissesse:

"Não era exatamente isso... Ainda falta alguma coisa."

É curioso observar nosso vício em pensar assim porque, se a felicidade estivesse realmente nas circunstâncias externas, bastaria conquistar aquilo que desejamos para permanecermos felizes.

Mas sabemos que não é isso que acontece.

O oposto também é verdadeiro. Se o sofrimento estivesse exclusivamente nas circunstâncias externas, todas as pessoas sofreriam da mesma forma diante dos mesmos acontecimentos.

Mas, sabemos que não é isso que acontece porque uma crítica destrói uma pessoa, mas fortalece outra.

Uma demissão arruína a vida de alguém, mas abre um novo capítulo para outra pessoa.

Uma perda faz alguém afundar numa depressão, mas pode levar outra pessoa a amadurecer e sair mais forte da situação.

Percebe que o fato é semelhante, mas a experiência é completamente diferente.

E por que é assim?

Porque existe uma diferença fundamental entre o que acontece e a forma como vivenciamos o que acontece.

No entanto, essa diferença costuma passar despercebida.

Sabe por quê?

Porque acreditamos que nos relacionamos com a realidade, mas, na maior parte do tempo, nos relacionamos com a interpretação que fazemos da realidade.

Pense em um relacionamento amoroso.

Quando nos apaixonamos, enxergamos qualidades por toda parte.

A pessoa parece extraordinária.

Cada conversa é interessante.

Cada característica parece encantadora.

E cada defeito parece irrelevante.

É como se projetássemos sobre aquela pessoa uma série de qualidades que sequer sabemos se ela possui.

Criamos uma imagem e então nos apaixonamos pela imagem. Anos depois, muitas vezes dizemos "Você mudou!"

Mas será que a pessoa mudou tanto assim? Ou será que começamos a enxergar aspectos que antes não víamos?

Será que estávamos olhando para a realidade ou para uma projeção construída por nossa própria mente?

A mesma coisa acontece no ambiente corporativo.

Você entra em uma empresa nova.

Tudo parece promissor.

A cultura é maravilhosa.

Os líderes são inspiradores.

As oportunidades parecem infinitas.

Mas, com o passar dos meses, você começa a perceber problemas.

Percebe incoerências, limitações e conflitos.

Então surge a sensação de decepção.

Mas a pergunta continua válida: a empresa mudou?

Ou sua percepção se tornou mais ajustada à realidade?

Nossa mente não registra a realidade de forma neutra.

Ela interpreta, seleciona, amplifica, distorce, projeta e constrói narrativas e depois reage emocionalmente às próprias narrativas que criou.

Talvez uma das maiores fontes de sofrimento humano seja justamente essa incapacidade de distinguir os fatos das interpretações.

Imagine uma situação simples... você entra em uma reunião, cumprimenta uma pessoa ela não te responde.

Imediatamente começa a passar um filme na sua cabeça.

"Por que ela está me ignorando?"

E em poucos segundos nasce uma emoção.

Talvez irritação.

Talvez insegurança.

Ou um ressentimento.

Horas depois você ainda está pensando naquilo.

Mas existe um detalhe: você não sabe o que aconteceu.

Talvez a pessoa estivesse preocupada.

Talvez estivesse distraída.

Ou, quem sabe, sequer tenha te ouvido

Mas seu sofrimento começou muito antes dos fatos serem esclarecidos.

Ele começou na interpretação, como se você sofresse por antecipação.

De fato, reagimos dessa maneira com tudo na vida.

Esse processo acontece milhares de vezes por semana.

Talvez milhares de vezes por dia.

Interpretamos olhares, mensagens, silêncios, comentários, decisões e comportamentos.

E quase sempre tratamos nossas interpretações como se fossem fatos reais.

É nesse ponto que nasce uma reflexão profunda que precisamos fazer: se nossa experiência da vida é tão influenciada pela forma como interpretamos o mundo, então talvez a origem do sofrimento esteja muito mais próxima do que imaginamos.

Talvez ela esteja dentro da própria mente!

O sofrimento que experimentamos não depende apenas do que acontece conosco, mas, também, da forma como interpretamos e nos relacionamos com aquilo que acontece.

Isso não significa negar que existam dificuldades reais.

Elas existem.

Existem perdas… doenças… fracassos e injustiças.

O ponto não é negar a realidade.

O ponto é perceber como interpretamos a realidade e, mais importante, como nos relacionamos com essa realidade.

É a forma que decidimos nos relacionar com a realidade que determinará se passamos pelas situações da vida com paz interior ou se reagimos emocionalmente a elas.

E quanto mais observamos nossa própria mente, mais percebemos como essa afirmação é verdadeira e como somos escravos dos nossos pensamentos.

Se você fizer uma reflexão sincera, perceberá que boa parte dos nossos conflitos surge quando acreditamos que tudo deve acontecer de acordo com as nossas expectativas…
como se o universo girasse em torno do nosso umbigo.

Esse é o verdadeiro problema, porque vivemos em uma cultura profundamente centrada no ‘eu’.

Somos incentivados o tempo inteiro a pensar em nós mesmos.

Na nossa carreira.

Nossa imagem.

Nossos resultados, interesses e objetivos.

Por essa razão, é natural que nos coloquemos no centro do nosso universo psicológico.

O problema é que, quando a gente se coloca no centro de tudo, qualquer coisa que não saia como a gente quer vira fonte de frustração e ganha proporções enormes.

Qualquer contrariedade se torna uma ameaça.

Uma discordância se torna uma ofensa.

E um obstáculo se transforma em sofrimento.

E o resultado disso é um só: uma mente repleta de estados mentais negativos que só trazem sofrimento.

Mas existe outra forma de olhar para a vida, onde nós não somos o centro de tudo.

Pense no seguinte…

Nenhum de nós existe isoladamente. Dependemos de pessoas que, muitas vezes, nem conhecemos: agricultores, motoristas, professores, médicos e funcionários.

Dependemos da natureza, da sociedade e dependemos uns dos outros.

Isso significa que você não é um indivíduo sozinho, mas alguém que vive uma relação com tudo e todos que te cercam.

Essa tomada de consciência é o primeiro passo para eliminar o nosso sofrimento.

Porque você passa a perceber que todos nós temos os mesmos problemas… os mesmos desafios… e sofremos pelas mesmas coisas.

Em outras palavras, a dor e os dissabores da vida não são exclusividade sua… eles fazem parte da vida de todos nós.

Basta estar vivo, para experienciar o sofrimento.

Infelizmente é simples assim.

Ter essa consciência mostra que você não é a única pessoa que sofre e que tem muita gente em situação pior que a sua.

Pensar na dor dos demais é o primeiro passo para eliminar essa tendência de uma mente autocentrada e egoísta.

E é nesse momento que algo interessante começa a acontecer.

Quando percebemos que outras pessoas além de nós sofrem, tiramos a atenção de nós mesmos, nos compadecemos com a dor dos outros e, por esta razão, nossos sentimentos negativos começam a perder força.

Não porque os problemas desapareçam, mas porque a mente deixa de estar aprisionada dentro do próprio ego.

Talvez seja exatamente aqui que esteja uma das maiores tomadas de consciência que podemos experimentar: perceber que a paz interior não vem do que está fora.

Vem, antes de tudo, da maneira como nos relacionamos com os nossos pensamentos e sentimentos.

Pense no seguinte… nós passamos a vida inteira tentando mudar as circunstâncias externas para encontrar paz interior.

Tentamos mudar as pessoas., o mercado, o governo, a empresa, o parceiro e o futuro.

Mas talvez a mudança mais importante seja outra e ela aconteça interiormente.

O que aconteceria se começássemos a compreender melhor a nossa própria mente?

Compreender como pensamos e porque reagimos de forma automática e descontrolada a determinados eventos – quem nunca teve uma reação de raiva no trânsito ou sentiu ansiedade por um futuro que nunca se concretizou?

O que aconteceria, por exemplo, se nós aprendêssemos a observar nossas interpretações antes de reagir automaticamente a elas?

Talvez descobríssemos algo surpreendente.

Que a liberdade não nasce quando conseguimos controlar tudo.

Ela nasce quando deixamos de ser controlados por aquilo que acontece dentro de nós – a maneira como nós nos relacionamos com os nossos pensamentos e sentimentos.

A qualidade dos seus pensamentos e a maneira com que você se relaciona com eles muda sua relação com tudo e todos que estão à sua volta.

É por isso que a busca pela tão sonhada felicidade não vem do que é externo.

Ela vem de uma compreensão profunda de como sua mente reage ao que é externo.

Então a pergunta que fica é: o que preciso fazer para conquistar esse estado de espírito e não ser mais uma marionete dos meus pensamentos.

A resposta, obviamente, não vem em uma frase pronta. Ela é uma jornada que precisa ser percorrida.

Se esse assunto faz sentido para você, então me acompanhe para realizarmos essa caminhada juntos.


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